O Que é o Talmud

Capítulo 4
ULTERIOR DESENVOLVIMENTO DO TALMUD






OS COMENTÁRIOS

A elaboração e o estudo da matéria tradicional não terminou ao encerrar-se o Talmud babilônico, mas prosseguiu, embora por outros caminhos, até os nossos dias. Por essa razão, no presente capítulo, vamos tratar brevemente dos principais progressos do Judaísmo em relação com a obra que nos interessa, posteriormente ao ano de 500.

Os séculos VI e VII estão ocupados pelo trabalho dos saboraim, "opinantes", os quais deram o último retoque no Talmud. Os saboraim fizeram uma revisão profunda, aclarando as passagens obscuras, decidindo as duvidosas e fazendo algumas pequenas adições de matéria halachica. Finalmente, - e eis o que é mais importante - puseram por escrito o texto recebido, não obstante já havermos aludido anteriormente à teoria que sobre eles sustenta Kaplan. O trabalho dos saboraim nos chegou anônimo, embora conservemos os nomes de muitos deles.

Nos fins da época que viu o florescimento dos saboraim, começam a tomar importância, até chegarem a converter-se na máxima autoridade em questões tradicionais, os gueonim (plural de gaon - "excelência"), ou seja, os chefes da Academia de Sura e de Pumbedita durante os séculos VII a X, embora na segunda metade deste último século, o centro dos estudos talmúdicos se haja deslocado para o Ocidente. A autoridade dos gueonim era reconhecida em toda a Diáspora, constituindo, pois, um vínculo de união entre todos os judeus, os quais lhe dirigiam "perguntas"; e são precisamente as "respostas" (Responsa) a essas perguntas que constituem o caminho dos gueonim no desenvolvimento do Talmud. Dentre os numerosos gueonim, queremos citar apenas o nome de dois: o primeiro é Sherirá, autor da Epístola anteriormente citada; o outro é Saadia de Faium (882-942), gaon de Sura; além de ser um grande polígrafo, - autor, entre outras obras, da primeira versão da Sagrada Escritura para o árabe - gozou de fama como defensor da doutrina tradicional judaica frente aos ataques da seita herética dos caraim.

Ao chegar o ano 1000, o centro da atividade talmúdica e, em geral, de toda a cultura judaica, transferiu-se para o Ocidente, especialmente para a Espanha. Além das quatro codificações, obra de quatro judeus espanhóis aos quais nos referiremos adiante, merece destaque especial a importantíssima obra de R. Shelomó b. Isaac, mais conhecido - segundo a tendência hebraica de abreviar - por RASHI, que viveu na França, de 1040 a 1105. Rashi deixou-nos comentários de quase toda a Bíblia (é, sobretudo, conhecidíssimo o dedicado ao Pentateuco); porém, ademais, é autor de um comentário sobre o Talmud, no qual com grande agudeza de espírito torna compreensível, inclusive as passagens mais confusas; dando, quando é preciso, a variante oportuna; expondo o sentido com objetividade impessoal, razão pela qual converteu-se no comentário por autonomasia, que acompanha o Talmud em todas as edições.

O comentário de Rashi tornou-se o ponto de partida dos estudos posteriores, realizados durante as séculos XII e XIII pelas escolas franco-alemãs que redigiram as tosafot (literalmente, "suplementos"), escólios que são tão complicados e sutis como claro é o comentário de Rashi. Algumas dessas tosafot aparecem marginalmente nas edições do Talmud.

A seguir, os estudos talmúdicos vão se deslocando pouco a pouco para o Este, convertendo-se no centro dos mesmos a Alemanha e a Polônia, onde floresce uma plêiade de comentaristas entre os quais merecem menção especial os nomes de Salomão Luria (1510-1573), autor de alguns hidushim ("novidades"), Samuel Edels (1555-1631), Meir Schiff (m. em 1641) e os comentários do célebre Elias de Vilna, falecido em 1797.




AS CODIFICAÇÕES

Nota mais detalhada daremos sobre as codificações talmúdicas. Tendo em conta a enorme variedade de material contido no Talmud, torna-se imprescindível dispor de algum método para poder-se achar na imensidade do oceano a gota de água que nos faz falta em determinado momento e, assim mesmo, é preciso reunir sistematicamente, elaborando para isso um índice, todos os textos que se referem a um mesmo tema. Isto explica porque, além dos inúmeros comentários de que o Talmud foi objeto (os principais já foram indicados), realizar-se-ão codificações das quais citaremos apenas as quatro mais importantes.

Essas codificações são, por ordem cronológica, as seguintes: A obra Halachot do norte-africano que viveu na Espanha, Isaac al-Fasi (m. em 1103), cujo código segue a ordem do texto talmúdico. Um século mais tarde, um cordovês, que a seguir emigrou para o Oriente, redigiu a segunda codificação. Referimo-nos a Moisés ben Maimon, mais conhecido por Maimônides (1135-1204), célebre em quase todos os campos da ciência, autor de um código completo do direito talmúdico, conhecido por Mishné Torá ("repetição da Lei") e, além de outras obras menores, de um comentário em árabe sobre a Mishná. A Mishné Torá é uma obra na qual se aprecia a grande capacidade de síntese e a exatidão de análise de Maimônides, assim como o seu apurado estilo. Livrando-se da forma de discussão, tira conclusões e apresenta-as de modo apodítico, dispondo as matérias sistematicamente segundo um plano orgânico, logicamente elaborado.

Jacob Ben Asher (m. cerca de 1340), filho de um talmudista e rabino da comunidade judaica de Toledo, escreveu a obra Arbaá Turim ("as quatro ordens") e, não obstante não possua os grandes méritos de Maimônides, foi muito utilizada, já que os talmudistas posteriores não eram capazes de captar, nem de apreciar os méritos da codificação do ilustre cordovês.

O último dos quatro códigos, o que na atualidade e desde a sua aparição goza de maior aceitação, é devido a José Caro (1488-1575), natural também de Toledo, não obstante ter vivido no Oriente. Leva o significativo título de Sulhan Aruch ("mesa preparada") e tem sido objeto de numerosos comentários, entre os quais se destacam as glosas de Moisés Isserles, de Cracóvia (século XVI), que muitas vezes acompanham ou vão insertos no texto da obra de Caro.




ATAQUES CONTRA O TALMUD

Uma obra de elaboração tão complicada, repleta de tantas dificuldades e por essa razão pouco estudada, era lógico que suscitasse discussões e ataques que foram se sucedendo desde que foi elaborada até pleno século XX. Referí-los todos, por extenso, ocuparia um livro bastante avultado; por isso, limitar-nos-emos a citar os principais.

Deixando de lado o forte ataque contido na Novela 146 de Justiniano, que foi escrita pouco após haver-se encerrado o Talmud, devemos assinalar que em 1239 e por ordem do papa Gregório IX, o Talmud foi queimado publicamente na Itália e na França. Só um ano mais tarde teve lugar em Paris a primeira das controvérsias públicas que se estenderam durante séculos, controvérsia que nos é conhecida graças à conservação dos relatórios de ambas as partes, escrita uma em hebraico e outra em latim. Poucos anos mais tarde, em 1263, teve lugar em Barcelona, na presença do rei Jaime I, a controvérsia na qual os judeus foram defendidos por Nahmânides, em conseqüência, do que, no ano seguinte o papa Clemente IV ordena por um lado queimar todos os manuscritos talmúdicos que fossem encontrados e, por outro, nomeia uma comissão que haveria de encarregar-se de expurgar do Talmud as passagens que considerassem ofensivas à Igreja.

Este decreto continuou em vigor até o século XVI, renovado, entre outras ocasiões, após a famosa controvérsia de Tortosa (1412-1414), que proibiu até mesmo o estudo do Talmud. Em princípios do século XVI, a partir do ano de 1510, foi iniciada a polêmica pública entre o convertido Pfefferkorn e o sábio humanista cristão João Reuchlin (1455-1522), que havia estudado o hebraico com mestres judeus, e gozava de prestígio pelo seu conhecimento das três línguas sagradas (grego, latim e hebraico). A polêmica prosseguiu com diversas alternativas, até que em 1520, o papa Leão X revogou o decreto de Clemente IV e permitiu que o editor Blomberg publicasse os dois Talmuds.

Porém apenas trinta anos depois, exatamente em 1553, Júlio III pôs novamente em vigor as medidas restritivas. As conseqüências dessa atitude são palpáveis; na segunda metade do século XVI o Talmud foi queimado publicamente em seis ocasiões, apesar de haver o Conselho de Trento permitido editá-lo, com a supressão de determinadas passagens.

Os ataques prosseguiram até há pouco tempo, pois inclusive no século XIX o erudito cristão Strack viu-se obrigado a defendê-lo, e contribuiu eficazmente para o melhor conhecimento do Talmud, com a publicação do seu Einleitung in Talmud und Midrash, já mencionado.



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Última alteração: 24 de fevereiro de 1999
Marcelo Ghelman

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