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Coleção Judaísmo
O Que é a Bíblia - 2ª parte
A LITERATURA PóS-BíBLICA ATé A ÉPOCA DA MISHNá

A. MENES

A compilação e a redação dos livros bíblicos foram concluídas durante o segundo século, A.C. Com isso também foi encerrado o canon das Escrituras Sagradas, da "Lei escrita", e teve o seu início, segundo a tradição israelita, o período da "lei oral". Durante quatrocentos anos aproximadamente, até os dias de Rabi Iehuda Hanassí, o compilador da Mishna, não se conservou entre os judeus nenhum monumento literário. Seria no entanto puro engano admitir que no espaço desse tempo todo não houvessem os judeus produzido nenhum livro. Na Mishna e no Talmud mencionam-se os "Sefarim Hitzoniím" ou "guenuzim", livros excluídos, ou à margem, que não foram incluídos nas Escrituras Sagradas. Sabemos, outrossim, que além da lei oral dos fariseus, ainda existiam livros de outras facções e correntes religiosas entre os judeus - livros dos saduceus, livros dos "minim". Uma parte dessa literatura apócrifa foi preservada em outros idiomas, sobretudo em grego, pois os judeus de Alexandria também incluíram no conjunto das Escrituras Sagradas uma série de obras, consideradas na terra de Israel como "livros excluídos". Juntamente com a Septuaginta foram essas obras colhidas pela Igreja cristã, e ali conservadas até os dias presentes. De alguns livros até se perdera o texto grego, ficando somente as traduções em sírio, latim, etíope, eslavo-arcaico, etc... A literatura judaica do período heleno-romano foi escrita em hebraico e arameu (Palestina e Babilônia) e em grego (diáspora greco-romana). Aqui tratamos somente da literatura judaica em hebraico e arameu, a qual se distingue, não apenas pela linguagem, mas também pelo fundo e pela forma, da contemporânea literatura greco-judaica.

Os livros apócrifos, em hebraico e arameu, podem considerar-se em muitos sentidos, como transição da literatura bíblica para a ulterior literatura do Midrash; neles se sente relativamente pouco a influência do mundo grego.

Uma das mais antigas e valiosas obras da literatura apócrifa é o livro de "Provérbios de Ben-Sira" (lá pelos 200 A.C.), aliás o único apócrifo que traz o nome certo do autor. Todos os demais livros daquela época são anônimos ou pseudônimos. O livro de Ben-Sira pertence à literatura de sabedoria e muito se assemelha, pelo teor e pela forma, aos Provérbios de Salomão. Pelo que parece, o autor mesmo era lente de sabedoria e moral, e nos legou em seu livro o resultado de seu próprio trabalho pedagógico e suas experiências. Idéias novas não nos fornece o autor. Polemiza até, em alguns trechos, contra várias "inovações", e, em geral, é adepto da tradição e do "áureo caminho médio". A maior parte do antigo texto hebraico de Ben-Sira foi novamente encontrado na conhecida "Guenizá" de Cairo, nos fins do século passado.

Os livros Tobias e Judith, que pertencem aproximadamente à mesma época, são anônimos. Aqui temos diante de nós narrativas com objetivo didático. Registram-se as boas ações de seus personagens, para que as gerações vindouras sigam o seu exemplo. Pela sua forma, as histórias de Tobias e Judith podem ser igualadas às narrativas bíblicas de Ruth e Ester.

As guerras dos Hasmoneus despertaram novamente, em Judá, o interesse pelos acontecimentos históricos. O monumento literário mais importante, dos tempos da independência política dos israelitas, sob os Hasmoneus, é o livro "Hasmoneus I", que nos fornece uma excelente e valiosa descrição histórica das discriminações de Antioco, e da luta pela liberdade religiosa e nacional.

Ecos das guerras libertadoras, bem como das posteriores lutas intestinas em Judá, sob o domínio dos Hasmoneus, também se ouvem em muitos outros livros apócrifos, e na opinião de uma parte dos pesquisadores, até em certos capítulos de Salmos.

A maior parte dos livros excluídos pertence ao gênero de literatura apocalíptica e de Midrash, perticularmente característica desse período. É um período de intensa agitação espiritual e forte tensão religiosa e política. Além disso, o povo não se preocupa com os interesses do presente e dedica-se sobretudo aos problemas da origem do universo e do "fim dos dias". Nunca floresciam entre os judeus tantos partidos e seitas religiosas e messiânicas como nos últimos dois séculos do período do Segundo Templo; jamais foram as tendências messiânicas tão fortes, dedicando-se tanto aos cálculos do "fim do tempo", como naquela época. A esse fato também se liga a literatura de "Agadá e Midrash", que se empenha em demonstrar, por meio de adequadas interpretações e "adaptações" de livros bíblicos, a veracidade desta ou daquela tese.

Uma coleção de visões escatalógicas, a exemplo de Daniel, de vários autores, encontra-se no livro "Hanoch". Este herói pré-histórico tomara nota de tudo que vira e ouvira em sua viagem pelo mundo do Além. Hanoch desvenda-nos os mistérios de todos os mundos, do passado e do futuro. O livro de Hanoch constitui, pelo conteúdo, uma mistura de mitologia oriental, mística judaica e esperanças messiânicas.

À mesma época aproximada pertence o "Sefer Haiovlim", um "midrash" sobre Gênesis e os primeiros doze capítulos de Êxodo, que, a exemplo do livro "Hanoch", conservou-se numa tradução etiópica.

Outrossim tiveram a sua origem naquela época:

Os Testamentos das Doze Tribos, onde se narra como cada qual dos filhos de Jacó recomenda aos seus descendentes como comportar-se, mostrando-lhes com exemplos de sua própria vida, quais as transgressões a evitar e quais as boas ações a praticar.

O "Sefer Dameshek", também descoberto na "gueniza" de Cairo, escrito sectário, em que se fala numa "nova aliança"; na segunda parte do livro acham-se os regulamentos da seita.

"Tehilot Shelomo", hinos lírico-religiosos, com acerbos ataques contra os mundanos governantes hasmoneus. Este livro foi aparentemente escrito logo após a tomada de Jerusalém por Pompeu (63 A.C).

Além disso ainda existem o "Sefer Baruch", "Aliat Moshe" e uma série de outros livros menores.

Nem a catástrofe nacional chegou a paralisar a vida espiritual de Judá. Aos mais importantes livros da Pós-Destruição pertencem a "Apocalipse Baruch" e particularmente o denominado "Esdras IV". Ambos os autores estão sob a impressão do desastre nacional, e buscam consolo nas visões da futura redenção. O autor de "Esdras IV" aborda ainda uma série de complexos problemas ético-religiosos, e o livro todo é repassado de um intenso pessimismo. A par da sorte de seu povo, aflige-o o problema da humanidade em geral, e muito se comove até com a tragédia do ímpio, que está por ser condenado no Dia do Juízo, que se aproxima.

À literatura judaica ainda pertencem, em parte, os escritos, lendas e tradições da primitiva comunidade cristã. Não pode haver dúvida de que Jesus e seus discípulos mais velhos ensinavam e pregavam em língua da Terra de Israel. Os ditos e parábolas de Jesus, citados no Novo Testamento, são genuinamente judaicos e se podem comparar aos ditos e parábolas do Talmud e do Midrash. Muitas bênçãos e orações judaicas conservaram-se na liturgia cristã. Foi somente na segunda e terceira gerações que o grego se tornou a literatura dominante e a língua de propaganda no mundo cristão.

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  Marcelo Ghelman