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Coleção Judaísmo
O Que é a Bíblia - 2ª parte
APOCALIPSE

A. MENES

No limite do período bíblico, acha-se o livro Daniel, uma das mais originais obras da literatura bíblica, escrita no tempo, e sob a impressão direta, das perseguições de Antioco. Aqui se nos apresenta a obra clássica da intitulada literatura apocalíptica, que tanto efeito exerceu sobre todo o desenvolvimento da criação literária entre os judeus, pelos fins do segundo templo.

Todo o livro Daniel consiste quase que exclusivamente em sonhos e visões. A época da profecia clássica, em que o profeta ouve a palavra de Deus, passara. Daniel está sendo informado dos desígnios de Deus através de visões, e aprofunda-se nos livros velhos dos profetas, onde pretende descobrir o "fim dos tempos".

"Eu, Daniel, entendi pelos livros que o número dos anos, dos que falou o Senhor ao profeta Jeremias, em que haviam de acabar as assolações de Jerusalém, era de setenta anos".

O livro apocalíptico retorna desse modo à forma originária da profecia, aos sonhos e às visões, que em Daniel, bem como nos livros apocalípticos ulteriores, constituem entretanto apenas produto de investigações literárias. Aos apocalípticos falta a ligação direta com o auditor. Dirigem-se a leitores distantes e podem por isso pôr as suas próprias palavras na boca de um eminente visionário antigo. A par das imagens apocalípticas acerca do perecimento dos grandes impérios mundiais e o fim do tempo, encontramos no livro Daniel uma porção de histórias de martírio. Pela primeira vez se nos deparam na literatura bíblica narrativas de mártires, que sacrificam a vida pela sua fé religiosa. Também ouvimos aqui o eco dos tempos dos Hasmoneus. A idéia fundamental do livro Daniel, bem como da literatura apocalíptica em geral, é a seguinte: todo o poder e a glória do homem são, afinal de contas, apenas efêmeros, os grandes impérios mundiais nada mais representam que gigantes sobre pernas de barro. Existe apenas um poder único, que é imutável e eterno: E "seu governo - governo eterno, que não desaparece, seu reino jamais é destruído".

É este o último acorde da criação poética dos judeus, no período bíblico. Pela época, estilo e ordem de idéias, forma o livro Daniel uma ponte para a literatura do período pós-bíblico.

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  Marcelo Ghelman