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Coleção Judaísmo
O Que é a Bíblia - 2ª parte
LíRICA LITúRGICA

A. MENES

Às mais valiosas realizações literárias, no período do Segundo Templo, pertence a lírica litúrgica. Hinos laudatórios e preces aos deuses também havia na Babilônia, Egito e outros países e muitas vezes encontramos nos hinos de Salmos vestígios do culto mundo circunvizinho. Mas, de um modo geral, o monoteísmo, as idéias religiosas inteiramente diversas de Israel e Judá, o destino especial do povo judeu - e os motivos nacionais, como é sabido, ocupam o lugar primordial nas orações judaicas - tudo isso criou condições especiais para o desenvolvimento da lírica religiosa, no período do Segundo Templo.

Em Israel, como em toda parte, a lírica religiosa estava inicialmente ligada aos serviços do Templo, como suplemento aos sacrifícios. As imponentes cerimônias nos sábados e feriados ou em outras ocasiões de eventos importantes na vida do povo, foram sempre acompanhadas de orações e hinos de louvor.

Igualmente, em tempos de calamidade nacional, somo sejam: má safra, guerra, epidemia, etc., o povo se reúne para rezar. Proclama-se freqüentemente um dia de jejum, e todo o povo, homens, mulheres e crianças, reúnem-se no Templo, e os sacerdotes então se dirigem a Deus em preces comoventes.

"Que os sacerdotes chorem entre a ante-sala e o altar e digam: Apieda-te, ó Senhor, de teu povo e não entregues a tua herança para ignomínio e despreso dos povos".

Paralelo a isso já achamos na antiga literatura bíblica, particularmente nos Profetas, a prece individual, em que a pessoa se dirige a Deus, por ocasião de penosas privações e amarguras pessoais. Essas preces individuais, que ainda hoje apelam para a alma do homem comum, imprimiram cunho especial à lírica bíblica, e foram elas que tão tremenda popularidade proporcionaram aos Salmos, tanto no mundo judaico como no mundo cristão.

O segredo deste singular poder dos Salmos consiste em que o judeu simples do povo ali encontra o tom e os termos para abrir-se com Deus, o Todo Poderoso e o Criador do mundo, como perante seu próprio pai, de um modo íntimo, cordial e direto, sem intermediários. Nesta prece silenciosa abre ele o seu coração perante o Criador, contando-lhe as suas aflições, o seu estado de ânimo e os seus anseios. Convém aqui observar que os hinos sálmicos foram em sua maior parte produzidos nos círculos das pobres e piedosas camadas sociais, que geralmente se achavam em oposição contra as esferas dirigentes, tanto da aristocracia leiga como da sacerdotal. Os cantores dos Salmos qualificam a si mesmos como aflitos e necessitados:

"Inclina, ó Senhor, os teus ouvidos e ouve-me, porque estou necessitado e aflito".

ou:

"Olha para mim e tem piedade de mim, porque estou pobre e aflito".

O "pobre" (oni) é aqui identificado com "hassid". Esses pobres e aflitos formam um mundo à parte. São eles que prosseguem nas antigas tradições dos profetas, cultivando especialmente os usos do celibato e da fé.

Excepcionalmente vigorosas são as passagens de Salmos, em que os poetas descrevem os seus íntimos sentimentos religiosos, as suas queixas e esperanças, e os seus anseios por unirem-se a Deus (êxtase religioso). Esse anelo de se achar perto do Criador dispõe muitas vezes de um sentido concreto. Ouvem-se aqui as vozes da imensa diáspora judaica, dos hassidim que viviam longe da santa "residência" de Deus. Em suas orações manifesta-se simultaneamente a sua nostalgia pelo lar nacional:

"Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim brama a minha alma por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus? As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite, enquanto me dizem constantemente: Onde está o teu Deus? ... Envia a tua luz e a tua verdade, para que guiem e me levem ao teu santo monte, e aos teus tabernáculos". (Salmos 42, 43).

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  Marcelo Ghelman