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Coleção Judaísmo
O Que é a Bíblia - 2ª parte
LITERATURA PROFéTICA NO CATIVEIRO DA BABILôNIA E NA éPOCA DO SEGUNDO TEMPLO

A. MENES

Ainda na época do exílio, também poude a profecia apresentar uma porção de vultos consideráveis. De um modo geral, porém, a atmosfera do domínio estrangeiro não foi terreno propício para a inspiração profética, e a tradição judaica considera a Ageu e Zacarias (atuaram em 515-520) como os últimos profetas. O manancial profético nem agora secou de todo, mas não se tem mais ânimo de falar em próprio nome, e na maior parte contentam-se apenas com suplementos e apêndices às palavras dos profetas antigos.

A figura mais relevante do tempo do cativeiro babilônico é sem dúvida o profeta da consolação, o autor de Isaias 40-55 (o "grande anônimo", como é qualificado por conhecido pesquisador bíblico, e que figura geralmente sob o nome de Isaias Segundo).

Se os profetas antigos vislumbravam sobretudo a aproximação da desgraça e a catástrofe nacional, Isaias já deixara a catástrofe atrás de si, e se considera por isso o mensageiro da redenção e do consolo. Se os profetas anteriores atuaram principalmente na praça pública, era Isaias o profeta da congregação religiosa no exílio - de um círculo restrito de correligionários. Falta-lhe, por esse motivo, o tom severo da repreensão. Ele não batalha contra um mundo de inimigos como Jeremias, mes vem, ao contrário, com a missão de fortalecer os fracos, levar ânimo aos corações desesperados.

As grandes vitórias de Ciro e a desintegração do império babilônico impressionaram profundamente o profeta e sem dúvida toda a sua geração. Isaias II via nesses históricos acontecimentos universais o dedo do Senhor. E Ciro era o enviado de Deus, para libertar o povo de Israel. O profeta do consolo pertence aos mais universalistas entre os pensadores da antigüidade judaica. O monoteismo, a idéia de um único Deus todo poderoso, que domina o mundo e realiza o seu desígnio na história, em parte nenhuma é apresentado com tanta clareza e coerência como em Isaias 40-55.

Mais ainda que nos outros autores bíblicos, ocupa por isso a natureza lugar proeminente na poesia de Isaias II. Os céus e a terra cantam, quando Deus vai redimir o seu povo. A redenção traz não só a libertação do jugo estrangeiro, mas também uma transformação radical em toda a ordem do universo. (Isaias 41):

"Os aflitos e necessitados buscam águas, mas nenhuma há e a sua língua se seca de sede: eu o Senhor os ouvirei, eu o Deus de Israel, não os desampararei. Abrirei rios em lugares altos, e fontes no meio dos vales: tornarei o deserto em tanques de águas e a terra seca em mananciais de águas".

A imaginação profética passa além dos limites da sóbria realidade, e continua tecendo o fio das antigas tradições populares sobre a época do paraíso, os milagres no deserto, etc...

Não obstante toda a sua orientação universalista, Isaias II continua entretanto a considerar Israel - o povo eleito, que está, porém, incumbido de desempenhar o papel de fanal para todos os povos. Deus, o Senhor de todo o universo, não se olvidará de seu povo: "Porque os montes se desviarão, e os outeiros tremerão; porém, a minha benignidade não se desviará de ti, e o concerto da minha paz não se mudará". Nas chamadas "Cantigas dos servos de Deus", que incontestavelmente pertencem a Isaias II, atinge a poesia profética o seu nível mais elevado. O profeta não nos revela, e sem dúvida intencionalmente, quem é na realidade o "servo de Deus", se é a um indivíduo que se refere, ou ao povo todo. De qualquer modo encontramos aqui, pela primeira vez na história, e em forma tão clássica, a glorificação do fraco e justo, do herói que toma sobre si os pecados e a culpa de todo um mundo:

"Era desprezado, e o mais indigno entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e como um de quem os homens escondiam o rosto era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Porém, ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades: o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho: porém, o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos". (Isaias, 53).

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  Marcelo Ghelman