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Coleção Judaísmo
O Que é a Bíblia - 2ª parte
LITERATURA HISTóRICA E LEGISLATIVA NO TEMPO DO CATIVEIRO BABILôNICO E DO SEGUNDO TEMPLO

A. MENES

Com a queda do reino de Judá, inicia-se um capítulo bem novo na história do povo judaico. Os judeus se tornaram um povo exilado, povo sem terra e sem governo, mas com grandes tradições espirituais e com determinação inflexível de viver independente. Isto naturalmente tinha que imprimir um cunho especial às formas da criação espiritual judaica. Mesmo depois de uma parte dos exilados ter retornado ao seu antigo lar, Judá permanecia uma província do império persa.

Numa vida política independente, nem cogitar se podia agora. O exílio havia introduzido profundas modificações também nos costumes religiosos. Só agora que realmente se realizara a exigência do Deuteronômio a respeito da abolição dos santuários locais e a centralização do culto de sacrifícios em Jerusalém. A sinagoga que surgira na época do cativeiro babilônico, vinha substituindo cada vez mais o Templo. Assim sendo, o sacrifício como forma de serviço religioso também foi substituído pela oração.

Em torno da sinagoga formara-se a congregação religiosa, que ia progressivamente tomando o lugar de comunidade num Estado independente.

Os potentados persas, que olhavam com suspeita qualquer vestígio de poder mundano e autonomia política em Judá, favoreciam intencionalmente as ambições dos sacerdotes, reconhecidos como os únicos representantes da coletividade judaica. A influência sacerdotal deixa-se, portanto, sentir até na vida espiritual. Esse fato encontra a sua evidente manifestação no Livro da Lei, introduzido por Ezdras e Nehemias, como norma de vida da comunidade judaica de Jerusalém, e que se tornara o componente mais importante do nosso Pentateuco atual.

Esta última camada do Pentateuco, comumente denominada Código Sacerdotal, distinguiu-se muito, tanto pelo estilo como pelo conteúdo, das fontes mais antigas, especialmente do Jehovista e Eloista. A camada do Código Sacerdotal, que abrange sobretudo - afora alguns capítulos e Gênesis - a segunda parte de Êxodo, a íntegra do Levítico e a maior parte de Números, interessa-se bem pouco pela história do povo judaico, cedendo ao contrário, o maior lugar para os assuntos do rito, das leis, e preceitos, atinentes aos sacrifícios, deveres e privilégios dos sacerdotes. Os autores do Código Sacerdotal também encaram as tradições do povo sob aspecto diferente, interessando-lhes antes de tudo, não a narrativa em si, senão os assuntos da cronologia e da linhagem. O árido estilo burocrático de registro é geralmente característico para a camada do Código Sacerdotal. Assim, por exemplo, indica-se detalhadamente a data, quando começou o dilúvio: "No ano seiscentos da vida de Noé, no mês segundo, aos dezessete dias do mês". Da mesma forma é minuciosamente registrado o dia, em que cessou o dilúvio e as medidas da arca de Noé: "De trezentos côvados o comprimento da arca, e de cinqüenta côvados a sua largura, e de trinta côvados a sua altura". O lugar central ocupa na camada do Código Sacerdotal a descrição do Tabernáculo, o protótipo ideal do Templo.

O Código Sacerdotal dá uma impressão imponente, pela sistemática (particularmente o primeiro capítulo de Gênesis), mas o tratamento pormenorizado da genealogia e os detalhes cronológicos cansam muitas vezes o leitor.

A queda do reino, em geral, enfraqueceu grandemente o interesse pelos acontecimentos históricos. É significativo que as grandes coletâneas históricas, como sejam Reis e Crônicas, terminam a história do povo judeu com a destruição de Jerusalém. Possuimos, é verdade, ainda antes do início do período do segundo templo, excelente material histórico nas memórias de Ezdras e Nehemias. Isto, porém, nada mais constituiu que um episódio, e foi só com o levante dos hasmoneus que despertou novamente em Judá o interesse pelos problemas e eventos históricos. (Danial, Livro dos hasmoneus e outros).

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  Marcelo Ghelman