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Coleção Judaísmo
O Que é a Bíblia - 2ª parte
OS LIVROS DOS PROFETAS

A. MENES

O monumento literário que ficou dos profetas mais antigos é sobretudo biográfico e folclórico, conservado e cultivado nas "escolas" proféticas, pelos denominados "filhos de profetas". Materiais e documentos realmente autênticos não nos ficaram, nem de Elias e nem de Elisha. O primeiro profeta a deixar-nos as suas palavras escritas foi Amós, que atuou em Israel, por volta do ano 760 A.C., nos tempos de Jeroboão, filho de Ioash. Não nos cabe, naturalmente, dentro dos limites deste trabalho, entrar em detalhes sobre a vida dos profetas, sua obra e sua atuação. O que nos interessa aqui, acima de tudo, é a literatura profética. A vida pessoal dos profetas bem como a sua posição na vida política de Israel e Judá só mencionaremos na medida que se relaciona com a sua atuação de tribunos e homens de letras.

A profecia era, nos tempos antigos, ligada à magia, motivo por que o profeta é freqüentemente qualificado de "hoze" ou "roe" (vidente).

O profeta fica informado sobre acontecimentos futuros, ou coisas ocultas em geral, no sonho, ou através de visões, num estado de êxtase. Não existia, portanto, pelo menos nos tempos mais antigos, diferença essencial entre sonhos e "visões" proféticas. Em Deuteronômio 13 lemos, por exemplo: "Quando profeta ou sonhador de sonhos se levantar no meio de ti". O sonhador é aqui colocado na mesma linha do profeta. Mas o sonho precisa ser "compreendido", é preciso saber interpretá-lo. A arte propriamente dita do vidente ou sonhador consiste, portanto, na interpretação do sonho, na explicação e elucidação dos sonhos, próprios ou alheios (José, Daniel).

É essa a razão por que as primeiras profecias são vinculadas à técnica de "visionar" e interpretar sonhos, a qual também se aplica às "visões". Tanto o sonho, como a visão num estado de ênfase, são sempre misteriosos e de múltiplos sentidos. Muitas vezes, nem o próprio videntes está em condições de esclarecer a imagem que viu com os olhos espirituais, e tem de aguardar a interpretação de Deus. (Zacarias, Daniel). O quadro visionário ocupa, portanto, posição relevante na literatura profética e contribuiu grandemente para a formação do estilo alegórico, que os profetas utilizam com tanta freqüência. Às visões artisticamente mais vigorosas, com que deparamos na literatura bíblica, pertence, sem dúvida, a de Ezequiel 37, o conhecido quadro do vale com os ossos ressequidos, que Deus, na presença do profeta, despertou novamente para a vida.

"Veio sobre mim o mão do Senhor, e o Senhor, pelo espírito, me levou e me pôs no meio de um vale que estava cheio de ossos. E me fez passar por toda a roda deles e eis que eram mui numerosos sobre a face do vale, e eis que estavam sequíssimos. E me disse: Filho do homem, porventura viverão estes ossos? E eu disse: Senhor Jeová tu o sabes. Então me disse: Profetiza sobre estes ossos, e disse-lhe: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor Jeová a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis; E porei nervos sobre vós, e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis, e sabereis que eu sou o senhor. Então profetizei como se me deu ordem; e houve um arrado, profetizando eu; e eis que se fez um reboliço, e os ossos se achegaram, cada osso ao seu osso. E olhei, e eis que vinham nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles por cima; porém, não havia neles espírito. E ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó Filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor Jeová: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, e viverão. E profetizei como ele me deu ordem: então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em seus pés, um exército grande em extremo. Então me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel: eis que dizem: Os ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança: nós estamos cortados. Portanto profetiza: Assim diz o Senhor Jeová: Eis que eu abrirei as vossas sepulturas, e vos farei subir das vossas sepulturas, ó povo meu. E porei em vós o meu espírito, e vivereis e vos meterei na vossa terra, e sabereis que eu, o Senhor, falei isto e o fiz, diz o Senhor".

Não raro os profetas empregavam a imagem visionária apenas como meio literário, para dar mais vigor ao efeito de suas palavras. Mas, em regra, a característica da profecia não era a visão mas sim a palavra. Os denominados profetas "verdadeiros" até travam polêmicas contra os "videntes" e sonhadores:

"O profeta que tem um sonho, conte o sonho; e aquele em quem está a minha palavra, fale a minha palavra com vontade. Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor".

A mesma coisa lemos no Pentateuco, onde se faz uma distinção cardinal entre o modo por que Deus surge diante de Aarão e a maneira pela qual falou a Moisés. Enquanto o Criador aparece diante de Aarão (o representante dos sacerdotes) somente em sonho ou através de visões, fala Deus a Moisés frente a frente. Os profetas eram antes de tudo oradores, que atuaram publicamente na presença do povo congregado no santuário, ou na praça aberta. É por isso que Moisés diz a Deus, quando o envia aos filhos de Israel no Egito: "Não sou orador". O mesmo diz Jeremias, quando Deus lhe surge pela primeira vez: "Não sei falar, pois ainda sou jovem". Os profetas geralmente começam as suas orações nestes termos: "Assim falou Jeová" ou "ouvi a palavra de Jeová". O profeta "ouve" a palavra divina, na maioria das vezes, num estado de êxtase: "a mão de Deus repousou sobre mim". Mas, só fala ao povo depois de ter refletido e claramente formulado a palavra de Deus. Os discursos dos profetas se nos apresentam geralmente não como produto da arte oratória, senão como poesia profética, escrita em versos rítmicos.

Esses discursos foram, em parte, registrados pelos seus discípulos. Também as crônicas biográficas, que se encontram nos livros proféticos, foram geralmente escritos por outros, motivo por que falam dos profetas na terceira pessoa: "O Senhor falou a Oseas". Em Jeremias conta-se minuciosamente como Baruch, filho de Nerias, escreveu num rolo as palavras do profeta: "E escreveu Baruch da boca de Jeremias todas as palavras do Senhor, que lhe tinha falado, num rolo de um livro".

Se a literatura profética mais antiga interessou-se de preferência pelo passado, ocupam-se os "livros dos profetas", por sua vez, muitíssimo com o presente, e sobretudo com o futuro. Admoestam o povo pelos seus pecados, e anunciam o castigo de Deus pelas transgressões cometidas. Paralelamente a isso encontramos com freqüência nos profetas clássicos imagens idealistas sobre os venturosos tempos no "fim dos dias".

Profecia clássica desse gênero, profecia "messiânica", temos em Isaias 2 (idêntica à de Miqueas 4):

"E acontecerá no último dos dias que se firmará o monte da casa do Senhor no cume dos montes, e se exalçará por cima dos outeiros, e concorrerão a ele todas as nações. E irão muitos povos e dirão: Vinde, subamos ao monte do Senhor, a casa do Deus de Jacó para que nos ensine acerca dos seus caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor. E julgará entre as gentes, e repreenderá a muitos povos; e converterão as suas espadas em enxadões e as suas lanças em foices: não alçará espada nação contra nação, nem aprenderão mais guerrear. Vinde, ó casa de Jacó, e andemos na luz do Senhor".

O maior lugar tomam, nos profetas clássicos, da época anterior ao cativeiro, as histórias acerca dos infortúnios que Deus prepara contra seu povo, as queixas contra o povo e seus líderes, assim como a exortação para o arrependimento.

Empregam várias formas literárias para exteriorizar os seus pensamentos e fazê-los inteligíveis para o povo.

Muito popular entre os profetas é a forma da disputa processual, em que Deus e o profeta, na qualidade de seu representante, arguem com o povo:

"Vinde agora, e agui-me, diz o Senhor". Isaías evoca o céu e a terra para testemunhas ou juízes: "Ouvi, ó céus, e presta ouvido tu, ó terra; porque fala o Senhor". Às vezes o profeta se dirige diretamente ao povo, para que ele próprio julgue: "Agora pois, ó filhos de Israel, julgai, vos peço, entre mim e a minha vinha". Mui freqüentemente emprega o profeta, para elucidar os seus pensamentos, a alegoria e a parábola (particularmente Ezequiel). Israel e Judá assemelham-se a duas irmãs pecadoras (Ezequiel), Judá - a uma vinha que produz maus frutos (Isaias), etc. Não raro deparamos nos profetas com a forma de lamentação, que muitas vezes bem se apropriava para anunciar a desgraça (Amós 5,1; Ezequiel 19,27, etc.). A imagem da desgraça que o profeta enxerga na sua visão representa para ele uma realidade que o comove da maneira mais profunda: "Portanto digo: Virai de mim a vista, e chorarei amargamente, não vos canseis mais em consolar-me pela destruição da filha do meu povo".

O profeta não é só o emissário do Senhor junto aos homens, muitas vezes também se incumbe de ser o intercessor do povo perante Deus. E por isso ora freqüentemente a Deus em favor de seu povo. Podemos neste sentido designar os profetas como sendo os criadores das orações israelitas. O profeta que ora a favor dos homens, já se encontra na literatura antiga (Abraão junto à Sodoma, Moisés, Samuel). A Jeremias diz o Senhor: "Nem que Moisés e Samuel orem por eles, não quero saber desse povo". Com freqüência, a oração do profeta transforma-se numa discussão com Deus, apelando para a sua misericórdia e justiça. "Não faria justiça o juiz de toda a terra?", e perguntando-lhe por que permite tanta injustiça no mundo? Essas disputas com Deus pertencem às mais vigorosas passagens da literatura profética:

"Justo serias, ó Senhor, ainda que eu entendesse contra ti, contudo falarei dos teus juízes. Por que prospera o caminho dos ímpios, e vivem em paz todos os que cometem aleivosia aleivosamente?" (Jeremias 12).

Jeremias, o poeta mais subjetivo de todos os profetas, abre o seu coração perante Deus em assuntos pessoais também, particularmente no que se relaciona com a sua missão profética. Amaldiçoa o dia em que nasceu: "Ai de mim, mãe minha, por que me pariste homem de rixa e homem de contendas para toda a terra". Queixa-se a Deus por que o compele a ser profeta:

"Persuadiste-me, ó Senhor, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu, e prevaleceste: sirvo de escárnio todo o dia, cada um deles zomba de mim... Então disse eu: Não me lembrarei Dele, e não falarei mais no Seu nome; mas foi no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; e fiquei fatigado de sofrer, e não pude" (Jeremias 15,10).

É bem provável que as "palavras" dos profetas, preservadas na Bíblia, contivessem apenas formulações breves de idéias fundamentais, que o profeta desenvolvia mais ampla e mais detalhadamente nos seu discurso diante do povo. Nos livros dos profetas ulteriores (Jeremias, Ezequiel) já se acham discursos maiores, que mais se aproximam da prosa retórica. O profeta torna-se pregador. Jeremias particularmente preparou o caminho para a literatura "deuteronômica" ou, se é permitida a expressão, pseudo-profética.

Conta Jeremias como fôra pregar, fazer propaganda em prol da realização das reformas de Josias (Jeremias 11,6): "E disse-me o Senhor: Apregoa todas estas palavras nas cidades de Judá, e nas ruas de Jerusalém, dizendo: Ouvi as palavras deste concerto, e fazei-as". Este grande acontecimento que tão profunda revolução causara na vida social-política e religiosa de Judá, também gerou um novo estilo literário - as palavras dos profetas, que dominam todo o livro Deuteronômio, e todas essas partes do Velho Testamento, pertencentes à camada deuteronomística. O que mais se realça na litertura deuteronômica, é o estilo profuso do pregador e o veemente tom repreensivo de um guia e agitador do povo.

Aproveita-se profusamente a história, para provar o que acontece, quando se abandona o caminho de Jeová. Os escritores deuteronomísticos põem suas palavras na boca dos profetas antigos, e particularmente de Moisés. Desta forma, todo o livro de Deuteronômio está escrito em estilo de um discurso, melhor de uma espécie de testamento ideológico legado por Moisés aos seu povo, antes de morrer. A linguagem, assim como a mentalidade dos deuteronomistas, são consideravelmente mais pobres do que as dos profetas. O deuteronomista, como já indicamos, é antes de mais nada um pregador e preceptor, e portanto pensa especialmente na geração nova. Graças a este interesse pedagógico dos deuteronomistas ficou preservada a maior parte da antiga literatura histórica. Os livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis, chegaram até nós numa redação deuteronomística, e deviam servir de livros didáticos para o povo, sobretudo para a juventude. Em alguns trechos o redator até indica como se deve explicar à juventude este ou aquele episódio histórico: "Se teu filho te perguntar amanhã". Freqüêntemente o autor deuteronomístico discute com seus leitores o dever de ensinar os filhos: "E ensinai-os aos vossos filhos".

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  Marcelo Ghelman