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Coleção Judaísmo
O Que é a Bíblia - 1ª parte
O ROMANTISMO BíBLICO

A. MENES

A separação do reino não prejudicou a unidade espiritual de Israel, que continuou sendo um só povo, de uma só literatura; mas os problemas e os ideais são agora inteiramente outros.

O marco mais relevante da literatura bíblica no tempo dos dois reinos, isto é, no período do florescimento da vida espiritual de Israel, é o seu colorido ético-religioso. A influência dos profetas mais velhos, de Elias e Elisha, sente-se em toda a literatura da época clássica.

O segundo traço importante daquela época é o romantismo. Não é o presente, mas sim o passado, e na realidade o passado idealizado, que ocupa agora o lugar central na vida mental como na literatura. O presente tão veemente combatido pelos velhos profetas, não lhes merece atenção, não lhes suscita particular interesse. Muito menos ainda se podia então cogitar em compor canções laudatórias em homenagem aos reis ou outros políticos e dirigentes militares. O olhar dos poetas e pensadores volta-se agora para trás, para o período áureo dos patriarcas e da saída do Egito. O protesto contra as condições sociais dominantes conduz simultaneamente à idealização da vida nômade.

É esta a origem do romantismo do deserto, que domina toda a literatura daquele período.

A esse período pertencem, pelo menos literariamente, as narrativas do Pentateuco, as três camadas de Jehovista, Eloista e Código Sacerdotal, certas partes de Josué, Juízes, Samuel e as histórias sobre Elias e Elisha em Reis.

Que as narrativas do Pentateuco têm por principal base material, as histórias e lendas populares - prova-nos o fato de se repetirem continuamente os assuntos tipicamente folclóricos.

E embora se tenha conservado, tanto quanto possível, o cenário nômade, sempre se notam ainda traços evidentes da vida agrícola, e por toda parte se sente o espírito dos discípulos de Elias e Elisha. Um dos temas prediletos dessa literatura jehovista-profética é o milagroso nascimento do herói. Para esse fim emprega-se na Bíblia com freqüência o assunto da mulher estéril. Era o destino da mãe do personagem passar muito tempo sem ter filhos. Somente quando já perdidas todas as esperanças, é que Deus, ou um grande "tzadik", um profeta, contempla os pais com o nascimento de um menino-prodígio. Deparamos com esse tema nas histórias de Samuel, Sansão, Isaac, Jacó, Esaú e José. Com Moisés já se nos apresenta outra variante da miraculosa história infantil do herói. A criança recém-nascida corre grande perigo: o governante do país, informado, num sonho ou por meio de um astrólogo, de que ia surgir um novo herói, baixa um rigoroso decreto, ordenando o extermínio da criança (ou de todas as crianças). Mas tudo é baldado e o herói se salva por um milagre. A variante mosaica está muito difundida na literatura universal (Cristo, Ciro, Rômulus, etc.). Muito popular nas narrativas de Gênesis é o tema de luta entre irmãos, tomado da vida quotidiana dos camponeses, entre os quais a questão de herança desempenha um papel tão relevante. A luta entre irmãos e o fratricídio já atingira até a primeira família humana, os filhos de Adão e Eva. Os autores bíblicos ainda nos narram os conflitos entre Ismael e Isaac, Jacó e Esaú, José e seus irmãos, Peretz e Zerach. É característico que os narradores bíblicos tomam sempre o partido do irmão mais jovem (Habel, Isaac, Jacó, José e Peretz), apesar de que pela lei deveria a primogenitura pertencer ao irmão mais velho. Da vida real também são tomadas as cenas, em que os noivos se encontram junto ao poço - Jacó e Raquel, Moisés e Zipora; o servo de Abraão, Elieser, também encontra a Rebeca junto ao poço. É escusado provar que aqui se trata de um tema puramente literário.

Bem freqüente damos com o tema do procedimento injusto para com hóspedes, de transgredir os consagrados preceitos da hospitalidade. Trata-se quase sempre de transgressões sexuais (Sara no Egito, Sara na terra dos Filisteus, Sodoma, Dina em Sichem, Rebeca na terra dos Filisteus, a concubina de Gibéia). A isso se contrapõe, como modelo, os que observam os deveres da hospitalidade (Abraão e os anjos, Lot, a viúva de Cidon e Elias, Shunamit e Elisha). A esfera folclórica pertencem, sem dúvida, a história do dilúvio, o perecimento de Sodoma, a partida do mar, (tema que mais tarde se repete com Josué e Elias); os milagres do deserto (repete-se o tema, em parte, nas narrativas sobre Elias e Elisha), etc... Aqui também devemos partir de premissa que de início apenas havia a simples narrativa isolada, só mais tarde é que se forma em torno de um determinado personagem, quer seja figura histórica quer lendária, uma grinalda de histórias folclóricas. O mesmo tema se repete freqüentemente nas biografias de diversas personalidades.

A coordenação de todos esses motivos folclóricos e religiosos num sistema de história popular, será a tarefa somente dos grandes artistas vindouros.

Tanto o jehovista como o eloista obedeciam a rigorosos princípios na escolha do material. Ressente-se, por exemplo, o Pentateuco da absoluta falta dos temas heróicos; por outro lado, predominam na literatura daquele período os assuntos profeto-levíticos, como sejam as histórias de mulheres estéreis, a proteção dos estrangeiros, etc... Em contraste com Juízes, são os patriarcas personagens religiosos, que vencem todos os seus inimigos não pela força física, mas sobretudo com a ajuda de Deus. Outro elemento valioso nas narrativas do Pentateuco formam os temas etnológicos. Os narradores pretendem apresentar um quadro sobre a origem dos povos e tribos, suas relações com os vizinhos, seu destino histórico, etc... Em relação à arte leterária destaca-se particularmente a história de José, que mais tarde também ficou popular entre os judeus, e que tem sido aproveitada como enredo para espetáculos dramáticos (Mechirat Iosef).

A história de José representa, segundo seu volume, a maior narração do Pentateuco. O narrador domina perfeitamente a arte de empolgar o leitor, introduzindo continuamente elementos novos, imprevistos. Após José ter sido vendido como escravo no Egito, deixa o autor que o leitor tome fôlego por um instante: José acha graça aos olhos do seu amo e parece que a sorte lhe tenha sorrido novamente. Mas, eis que surge a primeira surpresa sombria. Inopinadamente, José cai na prisão, absolutamente inocente. Por um momento aparece-lhe na prisão um raio de esperança - José encontra-se com o copeiro-mor de Faraó, interpreta-lhe direito o sonho, obtendo a promessa de se interessar por ele. Mas, como soi acontecer entre gente graúda, o copeiro-mor esquece-se completamente de José. Somente dois anos depois, quando todos os sábios do Egito não lograram interpretar o sonho de Faraó, é que o copeiro-mor se lembra de José, e então soa a hora de sua grandeza.

Com os mesmos meios o autor empolga-nos, quando narra a história dos irmãos de José. Por duas vezes os irmãos chegam a casa de José, por duas vezes ele prende um de seus irmãos, por duas vezes restitui-se-lhes o dinheiro nos sacos. A segunda cena, porém, jamais é simples repetição da primeira. Surge sempre um assunto novo que aumenta a comoção. Da primeira vez, os filhos de Jacó deixam seu irmão mais jovem, Benjamim, com o pai; da segunda vez, chegam juntamente com ele; da primeira vez José manda pôr nos sacos apenas o dinheiro, da segunda vez, a sua taça encantada também. Qual fio escarlate estendem-se os sonhos através de toda a história de José. Os primeiros sonhos, que anunciam a grandeza de José, despertam a inveja de seus irmãos, levando-o à desgraça; depois são novamente os sonhos, por cujo intermédio ele se salva. A narrativa do José é em muitas passagens bastante sentimental e comove muito o leitor. Em geral, ela se destaca, tanto pela uniformidade da construção toda, como pela aprimorada execução das cenas isoladas. A idéia básica da história de José, em seu aspecto atual, é a idéia da Providência:

"Vós pensastes para o mal - diz José a seus irmãos - mas o Senhor julgou-o para o bem; não fostes vós que me trouxestes para cá, senão Ele, para que eu possa salvar tanta gente". Uma popularidade excepcional desfruta na literatura profeto-jehovistica a biografia do personagem religioso, como se observa nas narrativas sobre Elias, Elisha, Moisés, Samuel. Abraão também é descrito como vulto religioso, que vence todas as tentações e permanece fiel à sua crença (o Sacrifício de Isaac). Uma série de narrativas trata de problemas ético-religiosos, como sejam a história do Eden, o dilúvio, a torre de Babel, Sodoma, e que tais.

As histórias de Moisés e do deserto giram em torno do problema: profeta e povo. Ressaltam a árdua tarefa do guia profético, a ingratidão do povo, e os conflitos entre "o povo obstinado" e seu mestre, chefe tão ideal e preclaro como Moisés.

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  Marcelo Ghelman