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Coleção Judaísmo
O Que é a Bíblia - 1ª parte
AS CANçõES BíBLICAS MAIS ANTIGAS

A. MENES

A literatura bíblica é, antes de mais nada, literatura de um povo de camponeses. Dos tempos pré-históricos, isto é, antes de os filhos de Israel terem conquistado a terra de Canaã, não ficaram monumentos literários. Alguns pesquisadores críticos pretendem que no Velho Testamento ainda fossem preservadas remanescências literárias da chamada época do deserto. Segundo a nossa opinião, isso não se pode provar e por muitas razões, também é pouco provável. A despeito disso a literatura bíblica está repleta de temas nômades, e as narrativas da vida do deserto ocupam lugar central nos antigos livros bíblicos. É que os israelitas nunca foram um povo exclusivamente agrícola. Os denominados semi-nômades ou nômades de ovelhas sempre tomaram parte na vida hebréia. Cumpre acrescentar que a vida nômade era considerada, em muitos círculos, como vida ideal, e o romantismo nômade dominara por certo tempo a literatura. Eis por que devemos ter especial cautela ao datarmos a literatura do deserto, e sobretudo deve o crítico aprender a fazer distinção entre o romantismo e a realidade.

Em solo firme só nos encontramos a partir do momento em que os filhos de Israel se tornaram donos da terra de Canaã, a saber: desde a época dos Juízes.

O evento mais importante desse período é a guerra contra a coalisão das cidades canaanitas no vale de Izreel, descrita na canção de Débora, a qual constitui, na opinião de vários pesquisadores, o documento mais antigo que ficou preservado na época bíblica.

Aos melhores modelos da antiga poesia hebraica também pertence a canção de pesar sobre Saul e Jonatan. Sobremaneira comovente é aquele carinhoso tom pessoal:

"Angustiado estou por ti, meu irmão Jonatan; quão amabilíssimo me eras! Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres".

- o que nos surpreende justamente por pertencer àquela época antiga. A elevada arte literária das antiquíssimas canções bíblicas demonstra que é erro falar-se em primitivas condições de vida entre os hebreus, nos dias dos Juízes e dos primeiros reis. Aliás, isso também se confirma pelas antiquíssimas narrações históricas conservadas nos livros de Juízes e Samuel.

Os tempos dos Juízes e dos primeiros reis constituem o período propriamente "heróico" da história hebréia. Foi só então que os judeus se tornaram um povo, que promovia com bom êxito a sua árdua luta secular pelo domínio da terra, prosseguindo ao mesmo tempo na peleja pela unidade política. A literatura do período dos Juízes traz em si o cunho dessas grandiosas lutas nacionais e reflete as tendências das camadas dirigentes do povo, naquela época. É no fundo uma literatura mundana nacional-política, e personagens tais como Abimelec, Sansão, Guideon, Jefté e Absalão, bem pouco se adaptam ao ambiente dos vultos bíblicos, onde os patriarcas e os profetas ocupam a posição dominante.

A época de Daví e Salomão, sem dúvida, ainda mais enriqueceu a vida literária e as criações de Israel. A integridade nacional, a côrte real, o aumento do bem-estar, o florescimento do comércio, as diferenciações sociais mais acentuadas - tudo isso criou novas condições para a vida espiritual: toma maior impulso o interesse pelas tradições nacionais, começa-se a refletir sobre a posição de Israel no mundo, as ambições nacionais continuam aumentando. A literatura da época de Daví e Salomão ocupa-se, portanto, com o problema das fronteiras de Israel e de suas relações com povos vizinhos aparentados, como sejam Amon, Moab, Edom, etc... Importante também é o fato de que nos dias de Daví e Salomão se iniciam os apontamentos históricos oficiais, as crônicas reais de Israel e Judá, de onde os autores de Reis hauriram a maior parte de suas notícias.

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  Marcelo Ghelman