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Coleção Judaísmo
O Que é a Bíblia - 1ª parte
AS CAMADAS DO PENTATEUCO

A. MENES

O lugar central da ciência bíblica ocupa ainda hoje a questão referente às fontes do Pentateuco. Com efeito, já a tradição judaica estava ciente de que o Pentateuco não constituía livro homogêneo. O Talmud refere-se a três camadas de leis, que se acham no Pentateuco: A revelação do monte Sinai; as leis que Deus transmitiu a Moisés no Tabernáculo, e as leis de Aquém do Jordão. Por esse meio, a tradição tentou esclarecer o motivo por que muitas leis se repetem várias vezes na Torá. A investigação atual, pelo contrário, pretende deduzir daí que a Torá foi escrita, não por um autor só, e uma prova disso ela enxerga no fato de que os diferentes códigos também se distinguem marcadamente pelo estilo, pelo teor, e particularmente por toda sua tendência religiosa e social-política. Ainda mais importante é o fato de que a diferença no estilo e nas tendências igualmente se revela nas partes históricas do Pentateuco. Tudo isso nos obriga a revermos a concepção tradicional sobre a lei mosaica e a considerar o Pentateuco não como obra de um autor, senão como trabalho de um grupo de autores e de várias gerações.

O primeiro que tentou sistematizar a teoria das fontes e separar as distintas camadas de Gênesis, foi o teólogo e médico francês, Jan Astruc. Como ponto de partida toma os nomes de Jehová(*) e Eloim, que se encontram nos vários capítulos de Gênesis, para designar Deus. (Enquanto alguns capítulos empregam o termo Eloim para denominar Deus, outros há que continuamente designam Deus pelo nome Jahová). O trabalho subseqüente de gerações de pesquisadores bíblicos melhorou e apurou os métodos de selecionar as fontes. Revelou-se que o uso de Jahová e Eloim não é o único marco que separa as distintas camadas. Cada fonte se destaca pelo seu estilo peculiar e sua particular concepção religiosa do universo. O resultado dos trabalhos da crítica bíblica pode, hoje em dia, formular-se da seguinte maneira: Existem no Pentateuco (não só em Gênesis) três fontes básicas, denominadas: Jehovista, Eloista e Código Sacerdotal. Além disso ainda foram admitidas no Pentateuco partes que não pertencem a nenhuma dessas fontes básicas. Um livro à parte também forma o Deuteronômio. Cumpre ainda levar em consideração que, quando se fala em "Jehovista ou Eloista" não se refere isso aos autores isolados, mas sim a círculos literários e escolas.

(*) Os dados recentes da arqueologia bíblica permitem concluir que a forma originária é Iahvé. Aliás, a ciência bíblica nos últimos anos, derrubou vários "Fundamentos" da crítica bíblica, o que merece um estudo a parte.

É somente graças às observações da crítica do Pentateuco que podemos orientar-nos nesse labirinto de dificuldades e contradições, que se nos depara ao lermos os textos em seu aspecto atual. Ressalta isso principalmente quando se tenta harmonizar o esquema cronológico dos livros históricos com o teor das narrativas. Quando Jacó, por exemplo, chegou ao Egito com sua família, seu filho mais novo, Benjamin, contava, segundo a cronologia bíblica, 33 anos de idade; já era então, como se vê pelo registro familiar de Jacó, pai de 10 filhos. Seu irmão mais velho, Issacar, que tinha, conforme as mesmas datas cronológicas, 42 anos, já chegara ao Egito até com netos. Importa isso dizer que os filhos de Jacó atingiram a idade de casar aos 18 ou 20 anos. Por outro lado, conclui-se da mesma cronologia que, ao encontrar Raquel perto do poço, contava Jacó 77 anos de idade, já era bastante velho; não obstante, seu coração é ainda tão jovem que se encarrega de servir pela formosa Raquel sete anos completos. Quando Labão o enganou, substituindo a Raquel por Lia, Jacó já era então homem de seus 84 anos; seu amor, entretanto, por Raquel em nada esmoreceu, e ele se sujeita ao papel de servo por mais sete anos. É só aos 91 anos que Jacó tem a sorte de casar-se com a sua amada Raquel. Ora, para o autor dessa história, Jacó, sem dúvida, ainda era moço, quando chegou à casa de Labão. Tanto assim que está sendo descrito como jovem atleta que sozinho remove uma enorme pedra do poço.

O autor dessa narrativa não podia, certamente, imaginar que a sua história iria posteriormente ser reunida a outras fontes, resultando daí tal contradição cronológica. Obtém-se a mesma incoerência quando se tenta encaixar a narração de Ismael (Gênesis 21) no esquema cronológico. Conforme a cronologia de Gênesis, parece que Ismael já era mancebo de 16 anos, quando Abraão o expulsara de casa juntamente com sua mãe Agar. Para o autor, porém, de Gênesis 21, Ismael ainda é menino, a quem a mãe carrega sobre o ombro.

Quando chega ao deserto e a água se consome, lança ela o menino debaixo de um arbusto, e assenta-se à distância, para que não veja a morte do menino. É bem evidente que o autor da história de Ismael não tinha noção alguma a respeito da atual cronologia bíblica. Mas, se Ismael, aos dezesseis anos ainda é um menino desamparado, opera-se com Judá milagre bem diferente. Desde a época em que José foi vendido, até ao tempo quando seu pai e seus irmãos chegaram à casa dele no Egito, passaram-se cerca de vinte e cinco anos. Durante esse curto lapso de tempo, chegou a casar-se, casar filhos e, o que é mais importante, depois da morte de seus filhos casados, unia-se com sua ex-nora Tamar, teve filhos com ela, e chegou ao Egito com os netos da segunda esposa. Segundo esse cálculo, parece que os filhos de Judá se casaram na idade de 9 ~ 10 anos, o mais tardar.

Tais incoerências e outras não podemos atribuir aos autores bíblicos, que por via de regra, possuem singular senso artístico. Acontece que os poetas bíblicos não são responsáveis pelo trabalho dos redatores vindouros, que tinham diante de si material pronto e consagrado pela tradição, e não se atreveram a modificá-lo.

Ainda mais suspeitos são os freqüentes "dubletes", que encontramos no Pentateuco. Por duas vezes narra-se a criação do mundo e do homem. No primeiro capítulo de Gênesis, conta-se de um modo sistemático toda a história da criação do mundo; o homem é criado no último dia, como o coroamento da Criação. Aqui temos diante de nós o trabalho de um teólogo, que possui ainda por cima uma idéia a respeito do lugar do homem dentro da Criação. Já no capítulo dois achamo-nos diante de um poeta, que nos conta a história da formação do universo e do primeiro homem numa forma artística ingênua. A ordem sistemática, acima mencionada, falta aqui completamente. Deus cria os animais, planta o maravilhoso jardim no Eden depois de já haver gerado o homem. Bem por último cria Deus a mulher, para servir de companheira na vida do homem. Um "fio duplo" também se pode observar na descrição do dilúvio. Segundo o "Jehovista", provém a inundação de uma chuva vinda do céu, que dura quarenta dias. "E houve chuva sobre a terra quarenta dias". O "Código Sacerdotal" por sua vez, conta que se "romperam todas as fontas do grande abismo e as janelas do céu se abriram", e o dilúvio dura aqui cento e cinqüenta dias. Tais "dubletes" encontramos seguidamente nas narrativas sobre os patriarcas, na história de José e seus irmãos, no êxodo do Egito, no deserto, etc... Os redatores geralmente combinaram as diversas camadas de uma maneira hábil. Na medida do possível, às vezes transmitiram os textos do seu aspecto original, em capítulos distintos, como em Gênesis, um e dois. Muitas vezes, porém, não lhes foi isso possível; reuniram então, num quadro mosaico, fragmentos de várias origens; haja visto a história do dilúvio. Amostra de tal trama de fontes onde com relativa clareza ainda se podem distinguir os fios isolados, constitui o primeiro capítulo da história de José.

"E viram-no de longe, e, antes que chegasse a eles, conspiraram contra ele, para o matarem. E disseram um ao outro: Eis lá vem o sonhador-mor! Vinde agora e matemo-lo e lancemo-lo numa destas covas, e diremos: uma besta fera o comeu; e veremos que será de seus sonhos. E ouvindo-o Ruben, livrou-o das suas mãos, e disse: Não lhe tiremos a vida. Também lhes disse Ruben: Não derramareis sangue; lançai-o nesta cova que está no deserto, e não lanceis mão nele; para livrá-lo das suas mãos, e para torná-lo a seu pai. E aconteceu que chegando José a seus irmãos, tiraram a José a sua túnica, a túnica de várias cores que trazia. E tomaram-no, e lançaram-no na cova; porém, a cova estava vazia, não havia água nela. Depois assentaram-se a comer pão; e levantaram os seus olhos, e olharam, e eis que uma caravana de ismaelitas vinha de Gilead; e seus camelos traziam especiarias e bálsamo e mirra, e iam levá-los ao Egito. Então Judá disse aos seus irmãos: Que proveito haverá que matemos a nosso irmão, e escondamos a sua morte? Vinde, e vendamo-lo a estes ismaelitas, e não seja a nossa mão sobre ele; porque ele é nosso irmão, nossa carne. E seus irmãos obedeceram. Passando, pois os mercadores midianitas, tiraram, e alcançaram a José da cova, e venderam José por vinte moedas de prata aos ismaelitas. E os midianitas venderam-no no Egito a Potifar, eunuco de Faraó, capitão da guarda".

O texto atual é completamente ininteligível. Confundem-se Judá com Ruben. Os irmãos vendem a José, mas Ruben vai procurá-lo, dentro do poço como se nada tivesse acontecido, e ainda fica pasmado quando não o encontra. Igualmente se confundem os midianitas com os ismaelitas. Somente quando o capítulo é dividido em duas camadas, é que se torna clara a conexão. Segundo uma versão é Ruben quem salva a José; os irmãos lançam-no num poço seco e dali então é tirado furtivamente pelos mercadores midianitas. Pela outra variante, são os irmãos que o vendem, a conselho de Judá, aos ismaelitas que o levam para o Egito. Na composição de ambas as fontes ficaram algumas passagens mal alinhavadas, e ainda se notam os pontos...

Na opinião da maioria dos estudiosos, pertence o "Jehovista" e o "eloista" ao período do reino-duplo de Judá e Israel, isto é, lá pelos séculos 9-8 A.C. O livro Deuteronômio é idêntico, conforme admite a maior parte dos pesquisadores, ao Sefer-Hatorá, que foi descoberto no reinado de Josias (621 A.C.) e que somente foi reunido às partes mais antigas do Pentateuco, por Ezdras e seus discípulos.

À luz desses resultados, torna-se clara a evolução espiritual do povo hebreu, no período bíblico, e ficam também compreensíveis os relatos históricos, que dizem respeito às reformas de Josias e Ezdras. Ainda que em ambas as declarações se fale na lei mosaica, que está sendo implantada, se vê porém nitidamente que anteriormente os judeus não observavam os preceitos e nem conhecimento deles tinham. Na declaração sobre as reformas de Josias, conta-se que "nunca se celebrou tal Páscoa como esta, desde os dias dos juízes". Em Nehemias conta-se, mais ou menos o mesmo, acerca das cabanas (sucoth): "E toda a congregação dos que voltaram do cativeiro fizeram cabanas e habitaram nas cabanas, porque nunca fizeram assim os filhos de Israel, desde os dias de Josué, filho de Nun, até aquele dia".

Como se pode imaginar que a lei mosaica estivesse tão completamente esquecida? E como ainda foi possível que, mesmo depois de os israelitas se haverem arrependido, nos dias de Josias, deixassem de celebrar as festas das cabanas, segundo os preceitos da lei? A investigação crítica, que enxerga em ambas as reformas etapas da evolução religiosa em Israel, oferece a esse respeito a única resposta possível.

Um confronto entre as diversas camadas do Pentateuco e os livros dos profetas, que se podem datar exatamente, confirma os resultados da escola crítica.

O livro Deuteronômio acha-se, pelo seu espírito e estilo, muito próximo de Jeremias, enquanto que na camada do Código Sacerdotal evidencia-se pelo estilo e pela ideologia a influência de Ezequiel e da época do cativeiro. Adiciona-se ainda a isso o terem os livros bíblicos antigos pouco conhecimento a respeito dos preceitos e das exigências, que se acham no Código Sacerdotal. É só na época do Segundo Templo que todas essas exigências estão sendo praticamente executadas.

A investigação bíblica habilita-nos, deste modo, a datar mais ou menos exatamente os livros bíblicos e a incorporá-los na textura da história judaica. Graças a isso, também foi possível traçar as linhas gerais da história da literatura hebraica na época bíblica.

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  Marcelo Ghelman