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Coleção Judaísmo
O Que é a Bíblia - 1ª parte
AS FONTES DOS LIVROS BíBLICOS

A. MENES

Ainda mais importante que a crítica de texto, dedicada ao determinar e comentar os textos tradicionais, é a tarefa crítica, que se ocupa com a investigação das fontes dos livros bíblicos. Gerações de pesquisadores cuidavam dos problemas da crítica bíblica, e hoje podemos afirmar que, de um modo geral, chegou-se a resultados bem apreciáveis: conseguiu-se esclarecer, pelo menos em seus contornos gerais, a história complexa dos livros bíblicos.

É verdade que, em relação a muitas questões, ainda hoje imperam grandes divergências, e alguns eruditos até rejeitam completamente as cunclusões da crítica bíblica. Somos, porém, de opinião que para tanto não há nenhuma base séria. Não podemos naturalmente, penetrar na substância de todos esses problemas; tentaremos apenas dar em linhas gerais uma idéia sobre os métodos da crítica bíblica e os resultados gerais que até hoje se conseguiram.

Vamo-nos deter principalmente na questão de quando e como foram, segundo a opinião da escola crítica, escritos e redigidos os livros bíblicos?

A maior parte dos livros bíblicos, como Juízes, Samuel, Reis, Job, Ruth e outros, não trazem o nome do autor. Em parte alguma do Pentateuco se diz declaradamente que fosse Moisés que escreveu a Torá toda. Pelo contrário, nas narrativas do pentateuco fala-se em Moisés na terceira pessoa. Informes mais exatos e historicamente mais valiosos, apenas temos acerca dos últimos profetas. Na maioria dos casos, o teor realmente confirma tratar-se das palavras do profeta em questão. Os profetas reagem, em regra, sobre os acontecimentos de sua época, e por isso podemos quase controlar, através das notícias que achamos nos livros históricos, até que ponto esta ou aquela parte é autêntica, e onde começam os suplementos posteriores. Assim os livros dos profetas juntamente com os relatos históricos de Samuel, Reis, Ezdras e Nehemias, dão-nos a possibilidade de implantar uma ordem cronológica na literatura bíblica, e de reconstituir a evolução de Israel e Judá, durante o primeiro milênio da história judaica.

Sobretudo cumpre tomar em consideração que os livros isolados da Bíblia - salvo algumas exceções - não representam unidades literárias, tão somente coleções, maiores ou menores, de obras literárias. Nem por isso devemos esquecer que as atuais normas literárias em absoluto não se ajustam à literatura antiga. Um "conto" bíblico consta às vezes de apenas 8-10 linhas. Há uma poesia de Isaias, a qual conta exatamente quatro palavras (Isaias 8,1): "Disse-me também o Senhor: Toma um grande volume, e escreve nele em estilo de homem: Apressando-se ao despojo, apressurou-se à presa". Todos o texto que Isaias escrevera publicamente constituia-se das palavras: "Apressando-se ao despojo, apressurou-se à presa" (em hebraico: Lemaher shalal hash baz). Isto bastava para anunciar o perigo que se aproximava.

Mas, até unidades poéticas normais constavam de apenas algumas linhas. Não havia nos tempos antigos coleções maiores em circulação, senão, na maior parte, profecias avulsas, canções e narrativas. Só mais tarde é que foram coligidas, (freqüentemente pelo próprio autor) as coleções mais extensas, aonde podiam, por acaso, também entrar obras de outros autores.

Assim, por exemplo, a conhecida profecia sobre a paz eterna circulava muito tempo independentemente, e enquanto alguns a relacionavam com o profeta Isaias, outras haviam que a atribuíram ao profeta Miqueas (Isaias era coevo de Miqueas). É esse o motivo por que aquela profecia fôra admitida em ambas as coletâneas (Isaias 2 e Miqueas 4). Grande parte de unidades literárias circulava anônima e, apenas por suposição, os posteriores compiladores reuniram-na neste ou naquele livro.

Jeremias narra como vinha reunindo as suas profecias, durante vinte e tantos anos para escrevê-las num livro. O homem médio dos tempos antigos não tinha a possibilidade de adquirir livros, motivo por que geralmente se contentava com "folhas" e pequenas composições em forma de rolos, os quais ele mesmo podia copiar, em caso de necessidade. Alguns livros bíblicos, como por exemplo: Isaias ou Salmos, já foram originalmente compostos de compilações. Assim se explica porque uma porção de hinos se repetem duas vezes nos Salmos: 14-53, 40-70, 57-108 e 60-108. O mesmo redator certamente não admitiria duas vezes o mesmo texto num livro. Que nos Salmos já haviam sido admitidas coleções prontas, também se vê pelo fato do capítulo 72 terminar nestes termos: "Aqui acabam as preces de Davi, filho de Jessé". Esse compilador ignorava, portanto, a existência de outras preces e hinos sob o nome de Davi. E de fato são citados nas partes seguintes de Salmos.

Hoje em dia é quase escusado provar que não nos podemos fiar nas datas tradicionais sobre os autores dos livros bíblicos e sua época.

O salmo "Junto aos rios da Babilônia" - onde se sente em cada palavra o hálito de época do cativeiro babilônico, o profundo pesar dos exilados, o seu ódio aos vencedores e opressores, a sua ânsia por vingança e a nostalgia do lar perdido: "Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, esqueça-se a minha direita da sua destreza" - naturalmente não podia ser escrita por Davi, mais de quatrocentos anos antes do exílio babilônico. Igualmente não pode o profeta Isaias ser o autor de Isaias 40-66, onde não se acha a mínima alusão a uma Judá politicamente independente e onde, pelo contrário, continuamente se fala nos cativos da Babilônia. Ali até se menciona várias vezes o nome de Ciro, que viveu 250 anos depois de Isaias. Atualmente, todos, portanto, reconhecem que a segunda parte do livro de Isaias pertence a um autor anônimo (melhor autores) da época do exílio.

Tão pouco, o livro Daniel, em que se citam explicitamente os dominadores gregos do mundo, e até os decretos de Antioco Epifano (167 A.C.), podia ser escrito por um autor, que viveu nos tempos de Nabucodonosor, isto é, plenos quatrocentos anos antes.

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  Marcelo Ghelman