O Que é a Bíblia - 1ª parte

A Literatura e a Vida na Época Bíblica

LITERATURA POPULAR





Conforme já foi evidenciado, foram também preservados nas Escrituras Sagradas restos da antiga literatura secular. Repetidas vezes citam-se na Bíblia ditos populares, tais como: "Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram?"; "não se gabe quem se cinge, como aquele que se descinge", etc... Outrossim mencionam-se com freqüência na Bíblia canções, enigmas, parábolas e que-tais. A poesia na antiguidade é vinculada ao ritmo da vida. O lavrador "conduz as rezes" com canto (Ben Sira). Os pastores cantam, quando bem sucedidos na procura de água no deserto. Um modelo de cantiga de poço encontramos no Pentateuco (Números 21):

"Sobe, poço, cantai dele:
Tu, poço, que cavaram os príncipes,
Que escavaram os nobres do povo,
E o legislador com os seus bordões."

Grande alegria, ligada à música, canto e dança, proporcionava o recolher dos produtos da lavoura: "Todos se alegrarão perante ti como se alegram na sega" (Isaias 9,3).

A colheita das vinhas, a lida nos lagares: "E já nas vinhas não se canta, nem júbilo algum se faz; já o pisador não pisará as uvas nos lagares; já fiz cessar os júbilos", etc...

A canção acompanha o homem, não apenas no serviço, como também na vida familiar; quando nasce uma criança, quando esta é desmamada e, sobretudo, por ocasião de casamentos. Muitas vezes, quando chegam hóspedes, celebra-se a recepção solenemente, acontecendo a mesma coisa na despedida. Labão reclama porque Jacó fugiu ocultamente e não o fez saber: "para que eu te enviasse com alegria, e com cânticos". Em muitos contos da Bíblia vê-se que não somente nos palácios reais, mas também nas particulares festas familiares usava-se convidar cantores e músicos profissionais.

Como acontece em toda parte do mundo, também em Israel era o amor tema bem apreciado dos cantores e poetas. As canções de amor certamente também encontraram ali forte ressonância, como se verifica em Ezequiel 32 e 33, quando Deus se dirige ao profeta:

"E eis que tu lhe és como uma canção de amores, de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra".

Em Isaias achamos uma canção irônica sobre uma prostituta:

"Toma a harpa, rodeia a cidade, ó prostituta, entregue ao esquecimento; toca bem e canta e repete a ária, para que haja memória de ti".

Canto e música, como se vê, faziam parte da profissão dessas mulheres.

Uma coleção admirável de canções de amor da época bíblica temos no Cântico dos Cânticos. Os poetas revelam muita arte, tanto na descrição dos dotes físicos dos bem-amados, quanto na transmissão de seus sentimentos íntimos:

"Eu estava dormindo, mas o meu coração vigiava: eis a voz do meu amado, que estava batendo: abre-me, irmã minha, amiga minha, pomba minha".

Ou então:

"Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, que se achardes o meu amado, lhe digais que estou enfêrma de amor".

Artisticamente admiráveis são as metáforas tomadas, em sua maior parte, da vida animal e vegetal. A natureza ocupa de regra o ponto central nas canções de amor do Cântico dos Cânticos:

"Levanta-te, amiga minha,
Formosa minha e vem.
Porque eis que passou o inverno:
A chuva cessou e se foi,
As flores se mostram na terra,
O tempo de cantar chega,
E a voz da rôla se ouve em nossa terra;
A figueira brotou os seus figuinhos,
E as vides em flor dão o seu cheiro.
Levanta-te, amiga minha, formosa minha e vem".

Entre canções de amor e canções de bodas nem sempre se deixa estabelecer uma nítida linha divisória. Não pode haver dúvida de que a maioria das canções dos Cânticos foram cantadas em casamentos ("A voz do noivo e a voz da noiva").

Tal canção de noivos apresenta-nos, aparentemente, o capítulo 2 de Cântico dos Cânticos:

Noivo :


Qual o lírio entre os espinhos
Tal é a minha amiga entre as filhas.

Noiva :


Qual a macieira entre as árvores do bosque
Tal é o meu amado entre os filhos.

Encontram igualmente a sua expressão na literatura os acontecimentos tristes, tanto na vida particular como na vida coletiva.

Em casos de morte, lamentadores profissionais costumavam chorar o morto. Por ocasião da morte de personalidades famosas, os cantores criavam canções especiais.

Assim ficou conservada a Lamentação sobre Saul e Jonatan (II Sam. 1), a qual pertence às mais vigorosas criações da Bíblia. Nas Crônicas citam-se Lamentações, recitadas por Jeremias depois da morte de Josias.

Às vezes, os poetas também usavam o estilo lamuriante em suas orações de admoestação (coteje-se Amós 5): "Ouvi esta palavra, que levanto sobre vós uma lamentação, ó casa de Israel".

Uma coleção de canções nacionais de pesar ficou preservada nas Lamentações de Jeremias.

A esse respeito cumpre mencionar ainda as solenidades mitológicas de pesar, em homenagem aos falecidos deuses (culto de Tamuz), remanescentes de imaginações religiosas anteriores muito difundidas no mundo antigo, e que encontramos também em Israel. Ezequiel narra: "e eis que ali estavam mulheres assentadas, chorando o Tamuz". É provável que no ritual, assim como na literatura das solenidades judaicas de pesar, fossem também admitidos elementos desse culto pagão de Tamuz.

As canções nacionais são ligadas principalmente a acontecimentos importantes da vida do povo, como sejam a unção de um rei novo, a guerra, o regresso de uma guerra, etc... As canções reais já mencionamos acima. As canções guerreiras são em parte, também cantadas em virtude de seu efeito mágico, como por exemplo as canções de Balaão, e a canção citada em Números 10, 35:

"Levanta-te, Senhor, e dissipados sejam os teus inimigos, e fujam diante de ti os aborrecedores".

Quando os gloriosos guerreiros retornam da guerra, as mulheres recebem-nos com canto e música. Mulheres são também citadas como poetisas de canções guerreiras e triunfais (Débora, Miriam). As canções nacionais de triunfo, assim como as canções nacionais de pesar, já foram, ao que parece, especialmente colecionadas ainda nos tempos antigos, e provavelmente cantadas nas festas populares, nas paradas militares, etc... A Lamentação sobre Saul e Jonatam, conta o autor de Samuel, fôra cantada, "para ensinar a guerra aos filhos de Judá": pertencia ela à coletânea de Sefer Haiashar.

Cita-se também na Bíblia outra coletânea de canções nacionais, sob o nome de "Sefer Milhamot Jehová".


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Digitado em: 18 de outubro de 2001
Última alteração: 18 de outubro de 2001
Marcelo Ghelman

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