O Que é a Bíblia - 1ª parte

A Literatura e a Vida na Época Bíblica

LITERATURA MÁGICA





A palavra possui, segundo a crença do homem primitivo, um poder mágico. Mas, tem que ser naturalmente a palavra verdadeira, a formação exata do pensamento. Há, sem dúvida, grão de verdade na tese do que o estilo literário tem a sua origem no pensar mágico. Pois não basta a linguagem comum da vida quotidiana, quando se pretende exercer efeito em forças sobrenaturais.

É verdade que textos puramente sortilegos se encontram na Bíblia relativamente bem raro. Temos, porém, fortes razões para admitir que os hebreus também se utilizavam freqüentemente de canções mágicas, conjurações, textos místicos contra doenças e espíritos maus, etc. A que ponto, nem o rigoroso monoteísmo do posterior período bíblico pôde libertar-se desse mundo misterioso, prova o cerimonial da "desviada" (Números 5), isto é, o ritual que se aplicava a uma mulher, sobre quem recaíra a suspeita de se ter tornado infiel ao marido. Leva-se a esposa ao Templo, onde o sacerdote pronuncia perante ela uma conjuração, cujo texto escreve num "sefer", raspando-o depois para dentro de água, e dando a água à mulher para beber: ("Depois o sacerdote escreverá essas mesmas maldições num livro, e com a água amarga as apagará. E a água amarga amaldiçoada dará a beber à mulher"). O ingerir de textos escritos, provavelmente dum modo simbólico, menciona-se até em Ezequiel 3: - "Come este rolo, e vai, fala à casa de Israel". Restos deste gênero de literatura encontram-se na Bíblia, nas bênçãos e maldições sobre povos e tribos, textos geralmente atribuídos a célebres personalidades da antiguidade.

O povo acredita que o efeito produzido por essas bênçãos e maldições perdura durante gerações e por isso continua sempre a renová-las, para desfrutar o poder mágico das bênçãos, e aniquilar o inimigo através das maldições.

Aos melhores exemplos de literatura mágica pertencem as bênçãos de Jacó e Moisés, e os ditos visionários, atribuídos ao vidente não judeu Balaão.

A linguagem arcaizante, bem como as expressões confusas de sentido múltiplo são inerentes ao estilo de encantamento. A literatura mágica também se pode, em parte, acrescentar o vaticínio oracular, utilizado em algumas passagens da Bíblia, para interpretar o destino de povos e países. Exemplo de vaticínio oracular encontramos na resposta dada a Rebeca, quando por motivo de sua penosa gravidez fôra "procurar" interpretação divina:

"Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas. E um povo será mais forte que o outro, e o maior servirá ao menor".

(Gênesis 26,23)

A literatura mágica era cultivada mormente nas rodas sacerdotais, mas sempre encontra forte eco no meio do povo, introduzindo-se na vida quotidiana em forma de cumprimento, saudações, juramentos, etc.


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Digitado em: 24 de junho de 2001
Última alteração: 24 de junho de 2001
Marcelo Ghelman

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