O Que é a Bíblia - 1ª parte

Introdução

A BÍBLIA E O ANTIGO MUNDO CIVILIZADO





No início do século passado(*) era ainda o Pentateuco geralmente reputado obra muito antiga, senão a mais antiga de todas as obras da literatura universal. Hoje em dia sabemos que os judeus pertencem aos mais jovens povos cultos do antigo Oriente, e que não se pode comparar, quanto à linhagem histórica, nem com o Egito e nem com a Babilônia. Conforme nos mostram as descobertas arqueológicas, os filhos de Israel muito aprenderam com os seus vizinhos mais velhos, e a própria Bíblia não está isenta de influências estranhas.

(*) Esta coleção foi editada em 1962.

Citam-se no "Tanach" freqüentemente os eruditos do oriente e os sábios do Egito. Mais extensamente refere-se o Pentateuco ao lendário vidente estrangeiro Balaão. Também não pode haver mais dúvida de que tal como a rainha de Sabá viera, segundo a lenda bíblica, de terra bem remota, para ouvir a sabedoria de Salomão, também os judeus iam ao estrangeiro para ouvirem os sábios não judeus de fama mundial. Não há a menor dúvida de que artistas, trovadores e poetas de outros países eram vistos nas costas de Jerusalém e Samária. Entretanto, não podemos enquadrar os livros bíblicos, nem quanto à idéia e nem quanto à forma, no panorama literário do velho Oriente. E convém aqui recordar que justamente as partes mais importantes da Bíblia (como os livros dos profetas, as narrativas do Pentateuco, Job, etc.), até os dias presentes, ainda não encontraram seu similar na literatura de outros povos do Oriente.

Precisamente na época em que os judeus começaram a distinguir-se como povo soberano, com própria vida política e espiritual, toda a região cultural do velho Oriente sofrera uma profunda revolução política e econômica, que transformara radicalmente o aspecto do mundo antigo.

No fim do segundo milênio A.C. processa-se a transição da idade do bronze para a idade do ferro, o que também abre uma nova página na vida espiritual do antigo mundo. Para o primeiro plano vêm agora avançando, cada vez mais, os países do Mediterrâneo: Palestina, as ilhas do mar Egeu, a Grécia e mais tarde a Itália.

Os vales férteis da Mesopotâmia e ao longo do Nilo vão perdendo, aos poucos, a hegemonia política e social no velho mundo. A liderança passa para os "países de chuva", os quais devem a sua fertilidade ao "Nilo de cima", segundo se expressa no seu notável hino de louvor ao sol, o faraó Echnaton.

A Síria e a Palestina pertencem, sob aspecto cultural-histórico, como aliás também o confirmam as descobertas arqueológicas, não ao velho Oriente, senão à esfera cultural do Mediterrâneo.

Explica-se assim o motivo por que encontramos na antiga Grécia uma série de surpreendentes analogias com o desenvolvimento do antigo Israel.

O conhecido historiador, Eduardo Mayer, já chamara a atenção para a vasta afinidade ideológica entre os contos de Gênesis acerca dos tempos felizes do Éden e as tradições gregas a respeito da "Época Áurea". Ainda mais surpreendentes são a semelhança espiritual e a proximidade no tempo entre a Reforma de Josias (621) e a legislação de Solon (600).

Desde o século doze antes da era cristã, a influência espiritual da Babilônia e do Egito vem declinando cada vez mais. Mesmo as vitórias dos monarcas assírios, que atingiu até as beiras do Nilo, em nada modificaram a situação. Precisamente no século oito A.C. teve início a expansão da língua aramaica e a escrita hebreo-fenícia, que aos poucos foram dominando toda a área civilizada do velho Oriente. A vida espiritual nas grandes monarquias havia-se estagnado sob a pressão dupla da longa tradição e da máquina burocrática governamental.

Desde o começo da idade do ferro vêm-se pondo cada vez mais em evidência os povos jovens e os Estados pequenos, que têm a seu crédito as maiores realizações em todos os setores da vida espiritual. Foram os povos pequenos que tornaram possível o reflorescimento de uma livre literatura popular, independente da tutela da administração governamental e da casta sacerdotal. Sobremaneira ilustrativo neste particular é o fato de que o surgimento do poderio universal da Grécia, nos tempos de Alexandre o Grande, causou não somente o desaparecimento da liberdade política daquele país, como também o grande declínio na vida espiritual. A liberdade política constituía o solo comum, onde brotavam e medravam tanto os livros bíblicos como as obras dos clássicos gregos. E não foi, portanto, por mero capricho histórico que a herança de Jerusalém e Atenas se tornara o fundamento da moderna cultura européia, ao passo que as literaturas babilônica e egípcia, já na antiguidade estavam quase completamente esquecidas; o motivo foi o mesmo.

Outro fator relevante, que influenciou de maneira a mais poderosa a vida espiritual de Israel e Judá, e que também contribuiu para o colorido original da literatura bíblica, foi o Monoteísmo.

A ausência de um Panteão de deuses foi o motivo para que a literatura se libertasse totalmente de elementos mitológicos. Faltam, portanto, na Bíblia as cenas grotescas da vida dos deuses e das suas lutas, o que encontramos com tanta freqüência na antiga literatura do Oriente. Aqui, os deuses tinham que ceder lugar para os simples mortais, e graças a isso, a literatura bíblica tornara-se mais humana e mais real.

Mas, a idéia também atua sobre a forma. Os autores da Bíblia viram-se forçados a utilizarem-se de outros meios de expressão, para impressionar convenientemente o leitor.

É preciso ainda ter presente que na vida religiosa dos hebreus - pois a literatura em toda a antiguidade era fortemente vinculada ao culto - faltava a arte plástica. A funda impressão das imagens dos deuses sobre o crente devia necessariamente substituir-se pelo efeito da palavra. É essa incontestavelmente uma das razões por que a arte da palavra entre os hebreus, na época bíblica atingira um grau tão elevado.


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Digitado em: 4 de junho de 2001
Última alteração: 4 de junho de 2001
Marcelo Ghelman

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