O Que é a Bíblia - 1ª parte

Introdução

O CARÁTER PECULIAR DA LITERATURA BÍBLICA





A antiga literatura judaica teve uma sorte toda especial. O "Tanach", o Velho Testamento, em que se acha coligido tudo que nos ficou da intitulada época bíblica, tornou-se o livro - a "Bíblia" - tanto do mundo judaico como do mundo cristão. Por espaço de muitos séculos, foram os povos cultos da Europa educados nas "Escrituras Sagradas". Influência excepcional também têm exercido as tradições e imaginações religiosas da Bíblia sobre o mundo muçulmano. Até os dias presentes, é ainda o "Tanach" o livro mais difundido e mais lido no mundo inteiro, e pode-se afirmar sem exagero que não existe quase um idioma em que a Bíblia não seja lida. Pela sua atuação mundial-histórica, ocupa, portanto, a Bíblia, um lugar bem especial e, neste particular, quase não tem par em nenhuma outra obra da literatura universal. Desta forma podemos perguntar: aplicar-se-iam as normas gerais, da história e pesquisa literária, também à Bíblia? Pode-se, em geral, falar em "literatura bíblica", em "história de letras bíblicas"? Parece-nos que hoje em dia já podemos dar resposta afirmativa a essas interrogações. Está claro que nem por isso devemos perder de mira a enorme distância que nos separa da época bíblica e o cunho todo particular das Escrituras Sagradas. Não pode porém haver a menor dúvida de que o efeito dos livros bíblicos não se produziu somente em virtude de seu conteúdo, senão também pela sua forma, e que sem as suas peculiares qualidades literárias, o "Tanach" mal poderia encontrar tão formidável ressonância. Não foi por mero acaso que o estilo e os motivos bíblicos tenham exercido tão poderosa influência mesmo sobre a literatura laica dos povos modernos, e que a linguagem do "Tanach" tenha apelado para a alma de tantos homens e tantas gerações.

Não se pode compreender a Bíblia se não se possui a habilidade de perceber a singular arte literária de seus poetas e pensadores.

Essa grandiosa obra literária, que costumamos designar pelo nome Bíblia, representa atualmente para nós o conjunto da vida espiritual e das criações do povo hebreu, durante todo um milênio. Aqui temos, portanto, diante de nós a velha literatura judaica, nas suas mais variadas formas e aspectos; por aqui chegaram até nós as produções literárias de diversos círculos e de várias gerações.

Em sua forma atual, consta o "Tanach" de vinte e quatro livros, agrupados em três seções: Torá (Pentateuco), Neviim (profetas) e Quetubim (os demais livros do Velho Testamento).

Foram admitidas na Bíblia somente as "Escrituras Sagradas", isto é, só aqueles livros que, segundo a tradição, foram escritos pela profecia ou pelo espírito sagrado. Foram, portanto, excluídos, por princípio, não só todas as obras literárias de caráter secular, senão ainda livros de fundo religioso, desde que fossem considerados apenas como produto do espírito humano, sem direta inspiração divina. Por felicidade, os que compilaram e redigiram as Escrituras têm sido relativamente liberais na escolha dos livros e, de um modo geral, levaram em consideração não somente o conteúdo, como também a personalidade do autor, real ou convencionado. Desta forma, ficou preservada grande parte da mais antiga, no fundo leiga, literatura histórica, grande número de contos folclóricos, aforismos, cantigas, canções de amor (o Cântico dos Cânticos), etc... E posto que o "Tanach" constitua apenas uma seleção de escritos e fragmentos da literatura judaica, dão-nos os livros bíblicos, pelo menos em suas linhas gerais, uma visão sobre a vida espiritual do povo judeu na época bíblica.


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Digitado em: 31 de maio de 2001
Última alteração: 31 de maio de 2001
Marcelo Ghelman

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