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Coleção Judaísmo
O Pensamento Judeu no Mundo Moderno
SIGNIFICAçãO DO HEBRAíSMO PARA O PENSAMENTO MODERNO

LEON ROTH

§ 2. Hebraísmo e Ciência

O lugar do hebraísmo na Ética é geralmente reconhecido. Fica por considerar a sua importância para a ciência. É necessário assinalar não só que esta importância existe(101), senão que ela é, precisamente, da mesma ordem e nasce justamente da mesma fonte que a moral. O monoteísmo significa, não só a busca positiva da unidade, como também, como negação, o repúdio a pôr o homem no trono de Deus. Daí flui, como temos visto, seu caráter concreto real, objetivo. Ora, o espírito científico deixa-se definir por estas mesmas características, e a grande função do segundo movimento do pensamento judeu, do movimento do hebraísmo medieval, consistiu em havê-las deduzido explicitamente no estudo da natureza a partir do princípio monoteísta. Vimos que ali reside a sua principal importância para o mundo moderno, posto que, pelo menos, esta parte de sua doutrina revive no pensador a que se chamou o filósofo dos sábios: Spinoza. É oportuno chamar a atenção sobre o fato de que o mesmo espírito reaparece, consciente ou inconscientemente, na obra mais recente de muitos pensadores de origem judaica.

A teoria da relatividade, por exemplo, devida em grande parte à obra de judeus, é, segundo seus melhores intérpretes(102), e apesar de seu nome errôneo e pouco feliz, uma tentativa de superar o ponto de vista limitado do observador individual, e, como conseqüência, um novo passo para essa despersonalização de nossas idéias fundamentais a que tende todo o pensamento científico. Como tal, ela se assemelha nitidamente ao que temos visto como parte integrante da tradição hebraica em metafísica(103). Ao afirmar que «os pensamentos de Deus não são nossos»(104), faz-se ressaltar, não tanto o erro humano, como a verdade de Deus. Assim criou-se um critério supremo, igualmente válido para todos os pontos de vista. Ou, melhor, este critério tem um caráter tal que diante dele desaparecem os pontos de vista individuais. Na teoria da relatividade, esta tendência anti-antropomórfica parece ter encontrado sua expressão matemática; ela fornece uma importante contribuição ao conjunto do pensamento moderno que não somente vem de personalidades judias, como que também reflete inconscientemente as características familiares do antigo hebraísmo.

Tomemos outro exemplo: é digno de nota que os três esforços definidos dos tempos modernos para colocar a mente humana «em seu lugar», venham de Bergson, de Alexander e de Freud. Aqui também, explícita ou implicitamente, este esforço se vincula claramente à aversão hebraica ao antropomorfismo. O pensamento humano só é um elemento no universo. «Os espíritos, como diz Alexander(105), não são senão os membros mais bem dotados que conhecemos em uma democracia de coisas». É da essência do hebraísmo dilatar os limites. Na imensidade da criação não podemos reclamar para uma coisa a precedência sobre outra.

A significação deste ponto de vista aparece com força na maneira em que muitos pensadores judeus, tanto clássicos como modernos, tratam um dos supremos problemas: o da relação entre a moral e a metafísica. Propõe-se freqüentemente elevar as exigências do reino dos fins humanos ao estado da legislação que controla o mundo, e assim interpretar o universo em seu conjunto à luz dos ideais morais da humanidade. As opiniões sobre a origem destes ideais diferem. Porém, não interpondo o interesse de uma teoria especial, é difícil sustentar que o homem ou os «espíritos» afins a ele constituam a realidade inteira. É, pois, um exagero da importância do homem, isto de buscar uma interpretação da realidade somente em suas aspirações. De igual modo, o hebraísmo tem considerado sempre com suspicácia toda doutrina de «causas finais». Não podemos dar razão de «porque» as coisas são como são. Só podemos registrar, com   a maior precisão e com toda humildade, o fato de sua existência e classificá-las da melhor maneira possível. «Deus fez cada coisa para seu próprio fim»(106). Cada coisa merece um exame por ela mesma e não em relação com as necessidades ou as imagens da humanidade.

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  Marcelo Ghelman