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Coleção Judaísmo
O Pensamento Judeu no Mundo Moderno
SIGNIFICAçãO DO HEBRAíSMO PARA O PENSAMENTO MODERNO

LEON ROTH

§ 1. Hebraísmo e Ética

Ao abandonar a história, temos de ver agora as coisas sob uma perspectiva mais ampla. Em todas as suas manifestações, o hebraísmo tem-se mostrado essencialmente concreto. Já vimos a maneira em que o gênio dos profetas definiu o «conhecimento de Deus» como «julgando a causa dos pobres e dos necessitados»(83). Do mesmo modo, o legislador e o moralista oferecem, não uma teoria, sobre a natureza da justiça, senão a regra prática: «Tu não usarás de muitas medidas»(84). Ao lado da teosofia antiga e moderna ou do quinto livro da Ética a Nicômaco, tais textos parecem elementares; sem embargo, eles contêm, em substância e numa linguagem mais simples, lições sociais que o espírito analítico não chegou jamais a deduzir. Volta-se a encontrar a mesma característica nas descrições da idade de ouro, representada constantemente por toda a tradição hebraica como uma idade por vir, e não pretérita(85). O espírito contemplativo olha para trás; o espírito ativo, para diante. A vontade do justo, não satisfeita do estado presente da sociedade, procura a realização (não o sonho) de coisas melhores. Também, como o vêem nitidamente o profeta e o filósofo, a idade messiânica não está em outro mundo; é este mesmo, melhorado.

Este realismo pode ser considerado como uma segunda característica do hebraísmo, característica vinculada com a precedente. O hebraísmo aceita os fatos, e depois de seu primeiro grande vôo, não se entrega mais à reflexão transcendental. «Não está no céu»(86). Na religião tem feito ressalvar sempre a importância da disciplina das «obras» na faina diária da existência prática. Na moral, nos dá códigos práticos: o Pentateuco; o Talud(*); o código de direito rabínico de Maimônides; a argumentação árdua da obra sobre política de Spinoza, com seu esfôrço para «não rir nem chorar pelas ações humanas, senão compreendê-las» à luz da «natureza e condição comuns dos homens»(87).

(*) O fato lamentável de ser tão pouco conhecido este completo sistema de legislação civil e penal, é uma grande perda para o Ocidente.

Ao espírito concreto e ao realismo podemos ajuntar a objetividade(88). A mensagem é transmitida sob a fórmula «Assim disse o Senhor»; e o Senhor de tudo, como nos recorda o Salmista(89), justamente porque é o Senhor de tudo, não se deixa corromper. É impessoal, no melhor sentido desta palavra, da qual se abusa freqüentemente; a espera do homem que o seja também. As exigências da justiça são absolutas. Geiger já perguntou(90) se algum outro livro de Leis, havia alcançado, porventura, a sublimidade moral do preceito: «Não favorecer a um pobre em sua causa». E, sem embargo, desde o ponto de vista da conduta prática, ele é tão fecundo como a repetida advertência ligada às «matérias deixadas à decisão do coração», isto é, da consciência individual(91): «porém teme a teu Deus»(92). Deus está presente em todas as partes e é sempre testemunho onisciente; ele é somente juiz. Temos o direito de confrontar com esta concepção, as conseqüências morais do politeísmo, tais como as expressam, ainda que satiricamente, os versos de Eurípides:

«Era a vontade de Cypris que se castigasse com rigor estes males, saciando sua cólera, e Zeus decretou no céu esta lei imutável: nenhum deus pode contrariar a vontade determinada de um deus. Nós nos afligimos, porém ficamos à parte. Senão sem o temor ao vitupério do grande pai, eu jamais teria, estais seguro, descido à vergonha de ver aqiu, imóvel, morrer aquele, dentre os mortais, que mais caro me era»(93).

Assim, o politeísmo de Hélade, posto à prova pela reação da conduta humana, fica em oposição persistente com o monoteísmo de Israel e permanece no pluralismo. É o que mostra, de uma maneira surpreendente, sua grande contribuição positiva à arte, pois a arte é essencialmente individualista(94). Contemplativo em sua essência, interessava-se mais na reflexão que na conduta. Daí o «legado» que deixou à religião européia: a crença na influência proveitosa na opinião(95). O hebraísmo optou constantemente por um ponto de vista diferente. A Bíblia hebraica, como vimos, pede, não pensamentos, senão atos; não um credo, senão uma vida moral. Na Idade Média, uma das raras tormentas aparecidas na história da filosofia judaica foi provocada pela tentativa de confinar o judaísmo nos limites de um certo número de dogmas teóricos. Este ponto é importante, em virtude de sua semelhança com o que ocorreu entre os filósofos propriamente ditos. Spinoza(96) recusava separar o intelecto da vontade, generalizando, com isto, como em muitas outras ocasiões, a doutrina sobre Deus de seus predecessores judeus. Maimônides reagiu com vigor assombroso contra a doutrina platônica segundo a qual «Deus contemplou primeiro as idéias; depois criou o mundo»(97). Ibn Gabirol, o pensador medieval que se elevou acima de sua época e de seu meio, a ponto de ser tomado por um mouro cristão (sua obra mostra-se completamente isenta de referências a autoridades, salvo algumas menções a Platão e aos «sábios»), traiu, sem embargo, a tendência inata de seu espírito quando insistiu sobre a necessidade do conhecimento ser acompanhado pela ação, antes de que o espírito pudesse encontrar-se «livre do cativeiro da natureza»(98), e se afasta muito mais profundamente de suas fontes neoplatônicas, em sua particular acentuação sobre a vontade divina. Filon mesmo sabia que as «palavras» de Deus não são «simples palavras, senão atos»(99). O pensamento e a ação em todos estes grandes pensadores judeus do passado (como em muitos outros do presente, e no judaísmo sob uma forma religiosa sistematizada) estão indissoluvelmente ligados. Consciente ou inconscientemente, este é o protesto supremo da inclinação dos hebreus contra a inclinação dos gregos à opinião: a ortopraxia contra a ortodoxia.

À luz do que acaba de ser exposto, é fácil explicar o vivo interesse que o hebraísmo manifesta pelos problemas sociais. Renan pode ter exagerado ao não ver nos profetas mais que sublimes precursores de Saint-Simon; porém, grande parte de sua missão foi, indubitavelmente, um protesto contra a injustiça prática dos que «juntam casa a casa, campo a campo» e «arruinam a face do pobre». O mesmo espírito vê-se no papel desempenhado pelos judeus individualmente em movimentos para a incorporação da justiça às instituições humanas. Na medida em que as teorias econômicas e políticas especiais estão em jogo, sejam elas de esquerda ou de direita, o hebraísmo não tem, naturalmente, nada que dizer, e, na realidade, em relação à maior parte das questões encontram-se indivíduos judeus de um e de outro lado da barricada. Porém a determinação de não relegar a justiça ao reino da abstração é independente dos meios propostos para realizá-la; e na medida em que um movimento se propõe a colocar as vantagens da vida ao alcance das massas, ele continua a obra dos profetas. Este aspecto do hebraísmo, a paixão por uma justiça concreta, longe de ter desaparecido, exerce em nosso tempo uma influência das mais ativas. Alguns têm estimado que não é suficientemente viva. «É uma das curiosidades da civilização, observa o doutor Moulton(100), que aceitemos dirigir-nos para nossas humanidades as literaturas que se acham moralmente no pólo oposto da nossa, literaturas, nas quais, o tom mais elevado é freqüentemente uma apoteose dos sentidos, que degradam a divindade, não só ao nível humano, senão ao nível mais baixo da humanidade... Seria bom, certamente, que nossa juventude, durante o período de sua formação, visse apresentar-se, sob vestes tão brilhantes como as da literatura grega - em poemas que Píndaro não pôde superar com uma eloqüência tão grande como a de Demóstenes, ou em uma prosa igual a de Platão - um povo dominado por uma paixão extremada da justiça, um povo ao qual suas idéias de pureza, de bem infinito, de ordem universal, e sua certeza da decadência inevitável de todo mal, arrastam a um entusiasmo poético tão ardente, a uma dicção tão musical como a de Safo cantando o amor, ou a de Ésquilo ao troar suas profundas notas sobre o destino».

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  Marcelo Ghelman