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Coleção Judaísmo
O Pensamento Judeu no Mundo Moderno
SPINOZA

LEON ROTH

As fontes judaicas

Com a histórica declaração feita por Lessing de que «não há outra filosofia que a filosofia de Spinoza», o judeu holandês Baruch (Benito) Spinoza (1632-1677) começou a ocupar o seu lugar entre os maiores pensadores do mundo. Apesar de afastado de seu povo e excomungado pela comunidade local em que havia sido educado e da qual seu pai havia sido um patriarca, guardou toda a sua vida um tão forte vestígio de sua primeira formação, que o sistema de sua maturidade recorda, pelos traços gerais e pelos detalhes, a obra de seus predecessores judeus.

Esta afirmação não tende a diminuir a originalidade de Spinoza ou a negar o que deve a fontes não judaicas. Spinoza está na linha da tradição hebraica porque leva para o estudo dos problemas de seu tempo um espírito impregnado nos pontos de vista dessa tradição. A própria passagem onde nos fala do impulso que o lançou à meditação filosófica o coloca ali desde o primeiro momento. «Tendo-me ensinado a experiência que os fatos comuns da vida corrente são vãos e fúteis, e tendo visto que todos os objetos de meu desejo e meu temor não tinham neles mesmos nada de bom nem de mal, salvo na medida em que afetavam o espírito, decidi, finalmente, investigar se não existia alguma coisa verdadeiramente boa e comunicável ao homem, pelo que, somente seu espírito, com exclusão de todo o resto, possa ser afetado, e se existia alguma coisa por cujo descobrimento e cuja aquisição eu possa gozar para sempre de um bem-estar contínuo e perfeito»(48). Este não é um problema teórico; não se trata de descobrir uma verdade abstrata. É o velho problema hebraico da prática, do descobrimento de uma norma de vida.

É necessário delimitar cuidadosamente a afirmação de que Spinoza é um filósofo judeu, judeu não somente de origem, senão de inspiração. «O spinozismo, assinalou-se com acerto, não é um sistema senão uma atitide intelectual»(49). E é esta «atitude intelectual», e não um sistema particular de doutrina, o que divergentes teorias modernas têm encontrado valioso em Spinoza; e, aparte de toda questão específica de doutrina, é esta atitude mental o que Spinoza tomou da tradição hebraica. Como qualquer outro pensador, tomou de muitas fontes o detalhe dos problemas, e, talvez, até as suas soluções; porém, sua maneira de considerar o problema mais geral, o problema da vida mesma, foi a de seus predecessores judeus(50). Sua «visão», para empregar o termo de William James, é hebraica de nascimento, e é esta «visão» a que lhe dá vigor.

Os elementos complexos que compõem o mundo humano, podem classificar-se em morais e intelectuais. Ética e ciência, prática e teoria, dividem o universo dos problemas humanos; nenhuma das teorias da síntese mais vasta pode abandonar uma das duas, se quer conservar um valor permanente. Em sua maior parte, os sistemas, sejam filosóficos ou religiosos, acentuam um dos fatores a expensas do outro, ou deixam entrever um antagonismo que fica sem solução ao diminuir, com parcialidade, de importância um dos termos. A filosofia de Spinoza é a mais profunda e a mais acabada tentativa de fazer justiça a ambos.

Nenhum outro pensador, por exemplo, fez tão sucintamente uma exposição tão sugestiva das possibilidades do corpo humano, porém esta comprovação não o cega para os poderes igualmente existentes no espírito humano. É capaz de seguir imparcialmente estas duas ordens de reflexões (a literatura posterior mostra com quanto proveito para cada parte), porque, desde o seu ponto de vista, os espicíficos espíritos humanos, não menos que os corpos humanos específicos, são só «modos» em «atributos» paralelos da realidade única. A acusação que se lhe fez de haver reduzido todos os mistérios a um só grande mistério, é, em certo sentido, verdadeira. Porém a simplificação mesma é um progresso, consistindo toda a explicação em mostrar que todo fenômeno obscuro não é senão um caso particular de um problema mais vasto. Este ponto é duplamente importante para nossas presentes investigações, porque a simplificação assim obtida é justamente esse retorno à unidade que caracteriza o hebraísmo. A Ética trata de todas as matérias em relação à conduta humana: psicologia e teoria do direito e do Estado, tanto como preceitos morais práticos; porém a pedra angular de sua teologia, o rechaço do ponto de vista meramente humano, é sua característica geral. A obra de Spinoza é uma tentativa empreendida para desembaraçar-se dos preconceitos e idéias preconcebidas e de permitir as coisas falarem por si mesmas. Ela oferece uma teoria independente do espectador humano, que engloba os acontecimentos humanos. Porém, isto não é senão expor explicitamente o conteúdo implícito do teocentrismo da Bíblia hebraica. Como diz o próprio Spinoza: «Uns partem das coisas criadas, outros do espírito humano. Eu parto de Deus»(51).

Acredita-se, às vezes, que o interesse pela natureza demonstrado durante o século XVII, foi coisa inédita, e que, em conseqüência, seus grandes pensadores deviam ter procedido a um estudo inteiramente novo de problemas que não haviam sido encarados antes deles. As investigações têm demonstrado que Descartes mesmo era um medieval (os melhores dentre os medievais eram muito modernos). Uma vista d'olhos sobre a obra monumental que Steinschneider consagrou às traduções hebraicas da idade média, mostra o profundo interesse pela ciência contemporânea de que os judeus então davam prova(52). Não há, pois, motivo para se assombrar com o fato da síntese filosófico-religiosa elaborada durante a época precedente haja bastado para a seguinte, depois de haver passado através de um espírito rico e crítico. Spinoza não ia formar, senão que havia de absorver, essa «visão de toda realidade como uma só» que os estudiosos reconhecem como o princípio diretor de sua doutrina(53). Unicamente, teve de repetir a concepção segundo a qual Deus não é um simples «refúgio de ignorância», senão uma unidade de intelecto e vontade; que a teologia deve repousar sobre a física e ambas sobre as «verdades eternas» reconhecidas pelo espírito humano. É na filosofia dos pensadores judeus onde a maior importância atribuída a conduta havia sido combinada com a compreensão do fato de que as normas humanas só valem para os homens; a eles pertencia, também, o lugar comum, segundo o qual o culto supremo nascia do estudo da unidade sistemática da Natureza. Além disso, a assimilação explícita de Deus com a Natureza, havia sido formulada na história do pensamento judeu longo tempo antes de Spinoza, e certamente não podia parecer estranha aos espíritos que entesouraram o salmo 104.

Crê-se, com alguma freqüência, que a famosa excomunhão de Spinoza foi devida ao enunciado desta «heresia» e outras análogas(54), e, por isso, é oportuno recordar aqui um curioso acontecimento na história da teologia judaica. Vinte anos aproximadamente depois da morte de Baruch Spinoza, um erudito e pensador muito conhecido, David Nieto (1654-1728), chegou a ser rabino da comunidade judaica espanhola de Londres. Bom filósofo ele mesmo (publicou em espanhol um tratado De la Providencia Divina, e em hebraico e espanhol uma defesa da tradição), entrou em conflito com sua congregação por haver afirmado na cátedra sinagogal a identidade da Natureza e de Deus. Convidado a explicar-se, indicou os textos da Escritura que falavam em seu favor, e invocou a distinção entre os «objetos naturais particulares» (natura naturata) e a «natureza em geral» (natura naturans). Parece que foram os ecos de um movimento milenário recente que o induziu a levar esta controvérsia ante o maior letrado judeu da época(55). Longe de assombrar-se com a tese de Nieto, ele a admitiu como genuinamente religiosa e originariamente judaica, e se esforçou, além disso, em mostrar, com o auxílio de referências da literatura anterior, que era um lugar comum nos pensadores de autoridade indiscutida(56). Mostra-se particularmente de acordo com Nieto quando condena os que negavam a existência de uma «ordem geral do mundo» ou pensavam salvar a idéia de Deus, concebendo a natureza como um intermediário entre Deus e os objetos de sua providência(57). Não deixa lugar a dúvidas quanto a significação da doutrina para a moral tanto como para a física. «A recompensa dos que cumprem os mandamentos de Deus, e o castigo dos que os violam, - declara, citando com aprovação, um livro favorito de filosofia popular - são naturais, porque está na natureza mesma das coisas que o bem produza o bem». Deus é, pois, um com a natureza, no sentido profundo de que é pela natureza e sua obra que, até nos assuntos humanos se manifesta a sua providência. De onde vem a velha equação do sofrimento e do pecado. Não há dois domínios, o da natureza e o da moralidade. O bem da natureza é moral em última instância, ou bem, em última instância, a moral é natural. A unidade das coisas é tal que ela exclui a possibilidade da ação de dois poderes distintos.

Se fosse necessário dar nome específico a este tipo de pensamento, poder-se-ia empregar o termo panenteísta, pois, na fórmula rabínica, se bem que «Deus é o lugar do mundo», «o mundo não é seu lugar»(58). Spinoza mesmo protestou energicamente(59) contra a falsa interpretação de sua doutrina de que o mundo material, tal como o vemos e o palpamos, é Deus. Em todo caso, é para ele, ponto cardial, a idéia de que o real não seja nem confinado em nem esgotado pelos dois atributos do pensamento e da extensão que se encontram abertos ao entendimento humano.

Esta expansão dos limites encontra-se na oposição típica entre a moral de Spinoza e a do panteísmo propriamente dito. O panteísmo do Oriente Longínquo, em todo caso, repousa sobre a negação da vida e de seus valores. O fim proposto ao homem é o de se desembaraçar deste mundo, escapar à ilusão e encontrar consumação na renúncia. O sistema de Spinoza repousa inteiramente sobre a afirmação. Os valores humanos não são negados, senão restabelecidos em seu lugar. Não é que nada do humano seja estimável, senão que todo ele o é. O resultado é um otimismo que reclama altamente sempre mais atividade, a «passagem de uma perfeição menor para uma maior», que se acompanha de alegria. É errôneo supor que a doutrina da onipresença de Deus tira todo o sentido da ação humana. Esta é alentada e estimulada com o conhecimento de que é a força divina que trabalha em nós. A «casualidade imanente» da Ética, quaisquer que possam ser as suas conseqüências, é uma confirmação da essência individual, e tudo persiste igualmente nesta essência pelo simples fato de sua existência. A alegria que acompanha a atividade penetra assim toda a natureza, e a divisa «trabalhar bem e regozijar-se»(60) aplica-se tanto a criação inteira como ao homem.

O espírito da nova época encontra seu oráculo nesta afirmação universal. Os estreitos limites do esquema medieval do mundo se desvanecem. Os «atributos» de Deus, cuja essência é a atividade(61), são infinitos e os «modos» que aparecem nos atributos são igualmente infinitos. Qualquer que seja a expansão futura da nossa visão, continentes novos se abrirão sempre diante de nós. A voz é da nova época e de seu profeta, porém a mensagem é da sabedoria antiga. É a adoração do salmista: «Como são diversas tuas obras, ó Deus!»; o desafio lançado por Deus desde o seio do torvelinho: «Onde estavas tú quando eu fiz os alicerces da terra?»; a «alegria» dos pastos e dos vales, o «bater palmas» das árvores do campo; a fé em uma época em que «a terra estará cheia do conhecimento da glória de Deus como as águas enchem o mar». A nota dominante na filosofia prática é a mesma aversão para as coisas do outro mundo. A vida existe para a vida. «Nenhuma divindade - diz uma passagem famosa(62) - ninguém que não seja um invejoso, regozijou-se de minha debilidade ou de meus desgostos, ou considera virtuosas nossas lágrimas, nossos soluços, nossos temores e outros sinais de debilidade; pelo contrário; enquanto mais desfrutamos mais passamos a uma perfeição, isto é, mais necessariamente participamos na natureza divina». Ou bem, temos o desafio direto ao platonismo augustiniano: «O homem livre em nada pensa, menos que na morte, e sua sabedoria é uma meditação, não sobre a morte, senão sobre a vida»(63). É, além disso, a essência mesma da rebelião da nova época, porém o pensamento é muito mais antigo que Spinoza: «Os céus são os céus do Senhor; porém, ele deu a terra aos filhos dos homens». «Ele não criou em vão; formou-a para ser habitada». «Vêde, eu ponho hoje, diante de vós, a vida e o bem, a morte e o mal...; e tu elegerás a vida ...a fim de viver». «O Deus vivente» criou à sua própria imagem, e sua «glória» é a «plenitude de toda a terra»(64).

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  Marcelo Ghelman