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Coleção Judaísmo
O Pensamento Judeu no Mundo Moderno
DESENVOLVIMENTO MEDIEVAL E PENSAMENTO MODERNO

LEON ROTH

Importância de Maimônides e sua escola

§ 1. - Lógica e Metafísica

Unidade de Deus e Unidade da Natureza

Na Bíblia hebraica Deus é concebido como sendo, não somente a causa única, senão também a causa imediata de todo fato ou acontecimento singular. É verdade que unicamente Ele pode fazer milagres, e que o seu maior milagre é o estabelecimento da ordem moral no mundo. Porém, no que se refere ao interior deste mundo, só se tem muito escassamente a idéia de interações recíprocas. Pode-se ver sinais desta concepção nas passagens onde a ação de causas secundárias é posta de relevo: o mar agitado por um forte vento; Elias alimentado pelos corvos; Jonas resguardado por uma baleia. Todavia, tais passagens são raras e, provavelmente, não são representativas. Os escritores bíblicos têm da magestade de Deus um sentimento tal, que eles vêem em todo fenômeno isolado a conseqüência imediata de um ato particular de sua vontade.

Porém quando se considera a natureza da investigação científica, demonstra-se claramente que esta simples doutrina não é satisfatória. O acaso foi desterrado do mundo; em seu lugar reina a sabedoria divina. Porém, a menos que os atos desta sabedoria que constituem a natureza sejam compreensíveis para nós, não poderemos jamais penetrar na essência das coisas. A Natureza só pode ser interpretada se ela forma um todo do qual cada parte seja teoricamente explicável em termos aplicáveis ao resto. Este grande desenvolvimento das conseqüências do monoteismo foi claramente enunciado pelos pensadores judeus da idade média, particularmente por Maimônides. Através deles, por caminhos variados (dos quais o principal é a filosofia Spinoza) chegou até o mundo moderno. A Bíblia havia declarado que a Natureza inteira tinha um Criador. Eles agregaram o corolário de que a Natureza criada é única.

Deste modo se ajunta explicitamente a comprovação da debilidade moral do politeismo, a de sua debilidade lógica. O politeismo, está visto, envolve o caos, tanto na ciência como na moral, ou melhor ainda, exclui a possibilidade mesma da ciência, como antes se comprovou com a da moral. Se não há unidade de estrutura na Natureza, não pode existir um conhecimento ordenado. O ponto capital da argumentação na obra mestra de todo o movimento, o Guia dos Perplexos de Maimônides, consiste em estabelecer esta posição. Notável é a clareza de que é dotada. Deus é uma “causa livre”, porém uma causa racional, e sua racionalidade reside na homogeneidade de sua criação.

Este ponto é de suficiente importância para merecer a mais profunda atenção. O mundo é tratado como um todo individual, e é um, porque um é o Deus que o fez. Esta não é uma atitude monista, desde que ela mantém um criador transcendente, porém é a doutrina da unidade e da harmonia da estrutura das coisas, tirada de um sentimento da unidade de sua fonte O monoteismo hebreu não é, pois, originariamente, uma teoria científica que nasce, como nos filósofos gregos, da consciência do caráter unitário dos fenômenos naturais(25); este caráter unitário é melhor deduzido da intuição primária da religião. Porém, uma vez alcançado o resultado, a teoria religiosa mostrou-se muito mais coerente que a científica. A metafísica grega não rechaça nunca a contaminação politeísta. Platão e Aristóteles acreditavam ambos na existência de uma contingência real na Natureza. Tal doutrina é inconcebível para uma filosofia que nasça do monoteismo. O monoteismo já não pode admitir “causas aberrantes”, um “acaso” ou “casos fortuítos” em ciência, nem uma multidão de autoridades coexistentes na moral. E seu chamado ao sentimento é infinitamente mais poderoso que o da análise contemplativa. Para a mente religiosa, ainda que esteja orientada para a ciência, o espírito de Deus paira sempre sobre a superfície das águas.

É impossível seguir aqui completamente as conseqüências desta doutrina, e mostrar como, por transferência da acentuação da unidade de Deus para a unidade da natureza, a investigação científica (investigação das uniformidades na estrutura das coisas) chegou a ser o supremo dever religioso. A busca da verdade nas ciências foi ela mesma considerada como uma etapa elevada e essencial nos graus da sabedoria que culmina na iluminação do profeta. Porém, além das teorias sobre a profecia, a posição em conjunto segue sendo surpreendente. O teísmo não é uma confissão de ignorância, senão a expressão do conhecimento. Deus, segundo a fórmula bíblica, não é somente “justiça”, senão também “sabedoria”.

Este estabelecimento audacioso da ciência sobre o altar mesmo da religião, constitui a principal contribuição dos pensadores judeus medievais ao mundo moderno, pois foi esta teoria que, impressa no espírito de Spinoza três séculos e meio mais tarde, foi posta por ele no coração próprio de seu sistema. É questão interessante a de se ela foi ou não induzida pela boa lei do hebraismo bíblico. Porém, o que nos surpreende, sobretudo, é que não somente esta idealização da investigação científica, senão que até todo o fundo da ideologia científica moderna siga sendo hebraica. Historicamente, ele deriva, não do monismo empírico grego, senão do monoteísmo transcedental de Israel. O ideal de uma regularidade cósmica absoluta, na medida em que ela chegou ao pensamento geral, é de origem teológica. As “leis naturais” são originariamente decretos de Deus. Pelo menos um elemento dos mais importantes de sua história remonta pelo deísmo e pela teologia racionalista dos séculos XVII e XVIII, a Spinoza e, antes de Spinoza, a seus predecessores judeus(26). Em todo caso, detalhes a parte, o conjunto da concepção retira toda sua força das “palavras” e “mandamentos” de Deus, pelos quais é criado e sustentado o universo. O hebraismo, na realidade, longe de ser inimigo da ciência, foi a rocha da qual foi esculpida a filosofia dela(27).

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  Marcelo Ghelman