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Coleção Judaísmo
O Pensamento Judeu no Mundo Moderno
INTRODUçãO

(O pensamento judeu e o Renascimento)

LEON ROTH

O fim do século XV encontrou o hebraico estabelecido como um dos três idiomas de instrução superior. O resultado disto pode ser assinalado tanto no domínio teológico, como no do humanismo. Lutero, de um lado, Pico de la Mirandola, do outro, são exemplos de sua influência e importância. Porém, enquanto os teólogos só viam no hebraico o meio de interpretar a Bíblia, os humanistas acreditaram encontrar nele a chave de todos os segredos da criação. Idéias derivadas dos livros místicos hebraicos favoreceram poderosamente os novos movimentos intelectuais. Telesio e Patrizzi, filósofos típicos do Renascimento, reproduziram as suas teorias sobre a luz criadora e a natureza da matéria e do espaço(1), enquanto que precursores das disciplinas experimentais, como Agrippa e Paracelso, puderam tomar delas seu sentido da unidade e da continuidade da natureza, que chegou a ser um dos principais fatores da nova concepção. O livro filosófico favorito da época foi o Dialoghi di Amore(2), de Leão Hebreu ("Leone Ebreo" Don Judas Abravanel, aproximadamente 1465-1530); e tem-se feito remontar algumas das teorias essenciais de Giordano Bruno à Fonte da Vida(3) do pensador judeu medieval Ibn Gabirol (século XI). Assim, às tendências místicas e científicas do Renascimento bebiam igualmente nas fontes judias, e os "progressos de Jafet eram descobertos nas tendas de Sem".

Seria tarefa fácil, ainda que muito longa, a de recordar a influência individual de certos pensadores judeus. Porém nosso propósito não é este, senão o de discriminar um fator especificamente judeu proveniente de seu pensamento. Tropeçamos imediatamente com a dificuldade que encontra toda investigação que contém termos abstratos. Como chegar às generalizações, sem estudar em primeiro lugar os casos particulares? Por outro lado, sem conhecer as características da classe, como saber que casos particulares devem ser incluídos? É perigoso deter-se em um ponto especial e declarar o que constitui o "legado" judeu, a não ser que possamos definir exatamente o que entendemos por judaismo ou pensamento judeu. Porém se, não obstante, partimos de uma definição qualquer, corremos o risco de que seja parcial ou preconcebida. O único meio de estabelecer um critério, consiste em examinar os próprios documentos originais. É, pois, necessário remontar à Bíblia hebraica e estabelecer que interesse filosófico ela apresenta. Poderemos, então, apreciar o caráter hebraico das contribuições ao pensamento moderno devidas aos filósofos judeus. Um exame dos dados bíblicos mostra-se ainda mais indicado em virtude do fato de termos de partir da época da Reforma.

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  Marcelo Ghelman