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Coleção Judaísmo
Breve História da Literatura Judaica
O CENTRO CULTURAL DE IABNé

ISAÍAS RAFFALOVITCH

Esse grupo de patriotas resolveu esforçar-se concretamente para salvar a alma judaica, uma vez que não podia salvar-lhe o corpo. Estando o Templo na iminência de ser destruído, outro centro se tornava indispensável, um centro indestrutível, de maneira que, ainda antes da queda de Jerusalém já existisse para servir, como o Templo, de fonte de inspiração e de entusiasmo de onde surgisse a corrente da cultura e da tradição e que abrangesse e reunisse todo o povo de Israel, tornando-o uno novamente.

Esse grupo foi chefiado por um dos rabis mais proeminentes que floresceram durante a última década da existência do segundo Templo, Rabi Iohanan ben Zacai. Ele reconheceu que somente a Torá, o estudo da Bíblia, podia consolidar as forças dispersas do judaísmo; que para assegurar a continuidade da existência nacional dos judeus cumpria formar um novo centro, independente do Santuário, não ligado ao rito dos sacrifícios; que era necessário encontrar um refúgio, um abrigo para proteger o espírito judaico contido na Torá, expressão de seu gênio durante numerosas gerações. Salvos os estudos judaicos, os ideais do judaísmo, assegurada a sua influência, o país de Jerusalém e o Templo poderiam ser destruídos, mas o judaísmo continuará vivo eternamente.

Através da tradição popular sabe-se como o Rabi Iohanan conseguiu evadir-se da cidade sitiada, e apresentando-se perante Vespasiano, o comandante supremo dos sitiantes, fez-lhe um pedido modesto. Pediu permissão para abrir uma escola em Iâmnia ou Iabné, lugar sem importância, situado a pouca distância do Mar Mediterrâneo, onde com os seus discípulos pudesse tranqüilamente estudar a Lei. Pedido inocente ao qual o general romano prontamente acedeu. O romano não percebeu que com esta concessão dava ao judaísmo, e por conseguinte aos judeus, a vida eterna; que com este favor insignificante contribuia para conservar o povo que queria destruir; que com essa ninharia o altivo general, o conquistador, era virtualmente conquistado pelo fraco Rabi judeu; que na hora da sua grande vitória, Roma era derrotada pela Judéia.

Em Iabné, o Sanedrim, ou Grande Conselho, foi reconstituido, um grande Colégio foi aberto, e Iabné tornou-se o primeiro centro dos estudos judaicos. Aí os Rabis receberam a terrível, embora esperada nova, da queda de Jerusalém; estraçalharam suas roupas em sinal de desespero, choraram e se lamentaram em intenção aos mortos, mas não se desiludiram. Jerusalém acabou, mas Iabné vai ocupar o seu lugar. O Templo não existe mais, mas o Colégio tornar-se-á um santuário, cujos sacerdotes serão os estudiosos. Rabi Iohanan ben Zacai enunciou o princípio no qual a prece, a caridade, a beneficência e o amor ao próximo, devem substituir os sacrifícios, e o princípio foi aceito por todo o povo.

Em Iabné foi lançado o fundamento para uma intensiva obra cultural que ainda não está terminada. Tendo-se divorciado da política do mundo, o judeu desde então imergiu completamente na literatura. Como resultado direto da ação em Iabné, a literatura se tornou a ocupação principal do judeu.

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  Marcelo Ghelman