Tryte
Coleção Judaísmo
Breve História da Literatura Judaica
ISRAEL NA DIáSPORA

ISAÍAS RAFFALOVITCH

No ano 70 foi quebrada a existência político-nacional do povo judaico. A terra de Israel ficou deserta. Jerusalém em ruínas e o templo um monte de cinzas. A luz desaparecera da Cidade Santa. Roma tinha decidido alcançar a vitória completa. Os poucos judeus que restaram do terrível holocausto deviam ser privados de qualquer possibilidade de se reunirem novamente. O povo judeu devia ser exterminado. E na verdade, nada restava que pudesse ser salvo da desintegração total. A dissolução e o esquecimento estavam com as bocas bem abertas para engolir, para sempre e irrevogavelmente, os restantes filhos de Israel.

De acordo com todas as leis da natureza, presentemente não mais devia existir um judeu sequer. Nenhuma força da terra teria conseguido salvar qualquer outro povo do extermínio, se tivesse tido a sorte do povo judeu: sem território, sem um centro nacional, sem um ideal a alimentar, sem um fim a conseguir, o que ficou para impedir aos poucos sobreviventes de se misturarem com os dominadores, os romanos, como fizeram todos os outros povos daquela época

Temos, porém, uma máxima profética, cuja verdade está demonstrada pela experiência de muitas gerações: "Porque a casa de Israel não é como a de outros povos". Todas as leis, físicas e psicológicas, estabelecidas no estudo da História Universal nem sempre resistem à crítica, quando aplicadas à História de Israel. Até a própria existência dos judeus, como povo, é um enigma, algo de fenomenal, ou de sobrenatural, ou como dizem alguns: quase regular na sua irregularidade. Quando o povo judaico chega a um ponto em que o prosseguimento não parece mais possível, algo acontece, algo de inesperado sobrevem que transtorna todos os cálculos, e todas as teorias caem por terra.

Assim foi durente o período fatal acima mencionado. O organismo político judeu jazia em prostração; o sangue vital escorria, porém, de suas feridas. A alma, no entanto, o espírito judeu, salvou-se antes que o corpo tivesse expirado. A vida e a prosperidade ulterior salvaram-se e conservaram-se antes que o golpe fatal o tivesse prostrado para sempre. O que se deu, todos sabem. Em Jerusalém, na cidade sitiada, havia um pequeno grupo de homens de sangue frio e presença de espírito que compreenderam claramente a situação amarga do seu povo infeliz.

Viram que não havia nenhuma esperança de domar as poderosas legiões romanas; a queda da Judéia foi inevitável. Mas não pensaram no presente; a sua dor aumentou muito, quando pensaram no futuro. Que seria de Israel, disperso, sem um centro que reunisse e congregasse os membros espalhados e destroçados do povo, sem um centro para onde se dirigissem todos os olhares, um centro que exercesse a sua influência unificadora sobre os grupos de judeus disseminados e afastados uns dos outros.

Anterior   Topo da página Próxima

  Marcelo Ghelman