Tryte
Coleção Judaísmo
Breve História da Literatura Judaica
A RENASCENçA

ISAÍAS RAFFALOVITCH

O primeiro novelista hebraico de grande mérito foi Abraam Mapu, que escreveu romances em estilo bíblico puro, reproduzindo com arte admirável o ambiente bíblico em obras modernas. O maior poeta hebraico do século XIX foi Iudá Leon Gordon, cuja influência foi enorme, não somente sobre o estilo hebraico moderno, mas também sobre as idéias e os ideais da sua geração.

Moisés Leon Lilienblum, com o seu Pecados da Mocidade, revolucionou a juventude judaica, amotinando-a contra o que já era velho, e Iudá Leon Levin foi o primeiro a levar as idéias socialistas ao espírito reformador da mocidade. Peretz Smolenskin foi o primeiro a enunciar a idéia da ressurreição da língua hebraica como condição essencial para a vida real do judaísmo. Com sua revista mensal - A Alvorada - ajudou a desenvolver o estilo hebraico moderno e a concretizar a idéia nacionalista. Mêndele Mocher Seforim, Iudá Leon Peretz, Davi Frishman e Naum Sokoloff destruiram o antigo estilo alegórico e fizeram do hebraico uma língua hebraica moderna. Entre um grande número de poetas, novelistas, publicistas e jornalistas que escreveram sobre todas as fases da vida, sobressaem os nomes de Ahad-Haam na prosa, mestre de um estilo que é um hebraico perfeito e ao mesmo tempo perfeitamente moderno, e Bialik na poesia.

Não há fase na literatura mundial moderna que não tivesse achado a sua expressão completa no hebraico. A Biblioteca Nacional de Jerusalém publicou um catálogo das belas letras hebraicas desde Luzzatto até o presente, e o catálogo registra não menos de 3388 livros. Na Palestina o hebraico é falado por todos os judeus e o mesmo idioma é usado como veiculador da instrução nas escolas elementares, secundárias e técnicas.

No último quarto do século passado, quando o movimento do "esclarecimento" atingiu seu mais alto ponto, vários escritores, e entre eles literatos hebraicos afamados, lembraram-se que a grande massa do povo não ficara influenciada pela literatura hebraica, e encetaram um trabalho intensivo de cultura em ídish, e desde então centenas e milhares de livros, revistas e jornais apareceram em todos os campos de cultura, judaica e universal. Mêndele Mocher Seforim, Peretz, Sholem Aleichem e muitos outros escritores notáveis são agora clássicos e constituiriam o orgulho de qualquer língua. Dramaturgos como Shalom Asch e Anski foram traduzidos para outros idiomas e enriquecem o pensamento humano. Para se avaliar a produção cultural na língua ídish, basta ver os catálogos das modernas bibliotecas em ídish. E ainda não foi dita a última palavra nem em ídish, nem em habraico. O povo judeu ainda está no meio do trabalho, ou talvez só no começo.

Quanto ao quinhão dos judeus na literatura moderna universal, é desnecessário falar. Não há ramo de cultura moderna, em qualquer parte do mundo, onde os judeus não tenham a sua parte, e muitas vezes não estejam à frente do movimento literário. Como povo, os judeus contribuiram à cultura mundial em grande parte. A produção literária dos judeus não terminou com a Bíblia e com o Talmud. Tomando a Bíblia como base, eles continuaram a construir, camada após camada, erguendo um edifício de que se podem orgulhar com muita razão.

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Em marcha para o exílio, o primeiro pensamento dos judeus foi o de conservar a sua cultura, com a fundação de uma grande Academia, que lhes forneceu inesgotável vitalidade para resistir a todas as forças desintegrantes e mantê-los salvos até o dia de hoje. E agora(*), quando surge uma luz no Oriente, quando se avista a perspectiva da volta do povo de Israel a uma existência nacional independente em sua terra própria, o primeiro ato da regeneração da terra de Israel e do seu povo foi a fundação de uma Universidade Hebraica, de um lar para a cultura judaica, onde o espírito literário inato dos judeus terá a possibilidade de se reafirmar, de reassumir a sua função antiga, de ser o intermediário entre o Oriente e o Ocidente, trabalhando e cooperando para que seja conseguido o ideal do profeta: A terra estará repleta do conhecimento como as águas cobrem o mar.

(*) Note-se que este Estudo foi elaborado pelo saudoso Grão-Rabino dos Israelitas do Brasil, ISAIAS RAFFALOVITCH, no anos de 1934, portanto muito antes da criação do novo Estado de Israel.

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  Marcelo Ghelman