Breve História dos Judeus no Brasil

Capítulo XI
PERÍODO DA ASSIMILAÇÃO
(1824 - 1855)




Assimilação profunda da população judaica autóctone
Surgimento do foco judaico da Amazônia


Assimilação profunda da população judaica autóctone


Uma vez constitucionalizado o país e implantada a total liberdade de consciência, nada mais restava que pudesse sustentar a sobrevivência da população judaica, já bastante reduzida em conseqüência da assimilação que se vinha operando, lenta mas continuamente, nos 50 anos precedentes, à sombra do crescente liberalismo pós-pombalino.

Esses judeus remanescentes, cujo espírito coletivo já estava muito debilitado - pois, como mencionado atrás, eles quase só se consideravam judeus em virtude da discriminação vinda de fora - tão logo perceberam que desta vez a liberdade viera em caráter duradouro, cortaram aquela última amarra, de odioso fundo discriminatório, que os prendia ao passado judaico e difundiram-se rapidamente no seio da população geral, com a qual, de resto, já se achavam inteiramente identificados, sob todos os aspectos histórico-culturais.

(A título de curiosidade, aliás expressiva, merece notar que, não obstante essa integração total, muitos assimilados continuaram, pelos anos afora, a declinar a sua condição de ex-cristãos-novos, sendo mais notável o fato de que, mesmo depois de decorrido mais de um século, em pleno meado do século XX, encontram-se todavia descendentes de cripto-judeus que, com certo sentimentalismo, evocam a sua origem e testemunham o seu enternecimento pelos sofrimentos dos antepassados comparecendo aos templos israelitas por ocasião das principais cerimônias religiosas do ano).

O único fator que, nessa conjuntura criada após a Constituição de 1824, talvez ainda lograsse reacender a chama pretérita e preservar aqueles judeus da assimilação total, teria sido uma imigração maciça e homogênea de judeus, de nível elevado e de tradições afins.

Mas essa hipótese única, assim mesmo de efeito problemático, inexistiu de todo, pois que, depois da Independência, enfraqueceu de muito o movimento de imigração no Brasil, sendo que a imigração judaica praticamente se anulou. Evidentemente, não se pode levar em nenhuma conta os judeus esporadicamente encontrados de permeio com grupos imigrantes europeus. Tais elementos isolados, oriundos provavelmente de esferas israelitas já bastante assimiladas da Europa ocidental, passaram a atuar no país de forma exclusivamente individual, sem nenhum resquício de comportamento grupal e sem a menor manifestação de hábitos e tradições judaicos.



Surgimento do foco judaico da Amazônia


Cabe, apenas, abrir um parênteses para uma exceção de valor pouco mais que simbólico, verificada no extremo norte do país.

Logo após a Independência, principiaram a afluir para a Amazônia elementos judaicos provenientes do Marrocos. Tratando-se de uma imigração de origem nova, sem qualquer afinidade histórica ou cultural com a população brasileira da região, e dado o clima liberal criado pela Constituição de 1824, fácil e cômodo foi a esses judeus marroquinos conservarem sua religião e tradições, cedo vindo a fundar - no ano de 1828 - uma sinagoga, de nome "Porta do Céu", na cidade de Belém do Pará.

Essa aglomeração judaica da Amazônia, que, com o decorrer dos anos, foi sendo ampliada de maneira contínua com elementos oriundos da mesma região norte-africana, difundiu-se pelos pontos estratégicos do grande rio, passando a desempenhar um papel relevante no desenvolvimento econômico da região, bem como no intercâmbio comercial com o estrangeiro.

Entretanto, esse agrupamento judaico da longínqua Amazônia, pouco numeroso, aliás, e isolado, cultural e materialmente, das regiões vitais e mais adiantadas do país, não podia, evidentemente, exercer nenhuma influência sobre o judaísmo indígena que então já entrava na sua fase de total oclusão.

Por isso mesmo, a existência da minúscula comunidade do extremo norte do país não tira, de modo nenhum, ao período 1824-1855 a sua característica inconfundível, que é a de se ter, no seu decurso, processado a profunda assimilação da população judaica remanescente após a Independência do Brasil.



Capítulo XII

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Última alteração: 30 de julho de 1998
Marcelo Ghelman

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